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Sou uma mulher transexual de Lisboa, Portugal, onde nasci e cresci. Neste espaço poderá encontrar pensamentos, reflexões e comentários inerentes à minha vida como mulher trans. Seja benvind@ ao meu cantinho.

domingo, setembro 27, 2015

No rescaldo de "I am Cait"

Faz hoje uma semana que terminou em Portugal a emissão de "I am Cait". Supostamente esta foi a primeira season, pois parece que ou Caitlyn Jenner pretende continuar com o seu docu-reality show, ou a emissora pretende mais seasons, ou whatever. Vi e acompanhei com muita atenção todos os episódios, e "I am Cait" não me desiludiu, porque não estava iludida, mas ficou aquém das minhas expectativas.

Tudo começou com a capa e edição especial que Caitlyn Jenner fez para a revista norte-americana Vanity Fair. Houve choque, incredulidade, quem gostasse muito, quem não gostasse nada. Houve, acima de tudo, muito preconceito e muita palavra mázinha acerca de uma mulher que, aos 65 anos de idade, teve a coragem de fazer a sua transição e de o assumir e mostrar publicamente.

Ao longo dos vários episódios de "I am Cait" esta capa de revista e a entrevista dela lá contida são até referidas várias vezes, principalmente pelos dissabores que tudo isto trouxe a Caitlyn, principalmente  a nível familiar. Eu gostei da capa. Gostei da atitude de Caitlyn. Gostei das suas respostas a quem queria que ela se retratasse por mostrar ao mundo que existe. Os seus detractores até chegaram ao ponto de fazer abaixo-assinados e queixas para que as medalhas que ela ganhou enquanto Bruce Jenner lhe fossem retiradas. Felizmente demonstrou-se bom senso e Caitlyn nunca ficará sem as medalhas que ganhou, numa fase anterior da sua vida.



Quanto à série "I am Cait" foi um misto de emoções e de racionalizações para mim. Gabo a Caitlyn ter a coragem de transicionar com a idade que tem e de o assumir como se não houvesse amanhã. Eu fiz a minha transição durante os meus trintas e tais anos e sei bem o complicado que foi, quanto mais uma pessoa com o dobro da minha idade na altura. Mas Caitlyn é rica, tem poder, tem conhecimentos. Tudo coisas que nem eu tinha, nem a maioria das mulheres trans tem. E este foi um tema que muito se discutiu e que é pertinente. Ela também pôde fazer as coisas assim, pois é uma mulher privilegiada comparada com mais de 90 por cento da comunidade trans.

Ela afastou-se, fez a sua transição e apareceu com um rosto e um corpo novos. Quantas de nós puderam ou podem fazer isso? Quantas de nós podem pagar uma Cirurgia de Feminilização Facial ou a colocação de próteses mamárias? Quantas de nós podem pagar laser ou electrólise ao rosto e corpo? Praticamente nenhumas, digo eu. Eu coloquei próteses mamárias, mas fiz todo o processo clínico hospitalar necessário, e até conseguir ter as mamas que sempre desejei, esperei mais de sete anos. Nunca pude fazer laser ou electrólise, apenas cera e lâmina. Nunca pude fazer uma Cirurgia de Feminilização Facial. E não sou pobre, sou remediada. Claro que se tivesse uns milhões no banco, muito provavelmente a história tivesse sido outra.

Em "I am Cait" tentou-se focar vários temas-chave da comunidade trans norte-americana, mas não só, pois no fundo os problemas que lá aparecem, aparecem um pouco por todo o lado, inclusive neste jardim à beira-mar plantado. A exclusão, a discriminação, todos os preconceitos de que somos vítimas, e de como se pode tentar resolver ou minorar essas questões. Mostrou-se também que ser-se uma mulher trans e republicana/conservadora são coisas que não batem lá muito bem, como Caitlyn mostrou com as suas posições. Posições estas que punham muitas questões nos rostos e olhares das outras principais intervenientes na série.

O que mais deu nas vistas foi o total desconhecimento de Caitlyn da vida miserável que a maioria esmagadora da comunidade trans tem. Ficava admirada com os adolescentes que eram expulsos de casa, com o número crescente de suicídios, com a questão sempre pertinente da maioria das mulheres trans terem que se prostituir para terem dinheiro para fazer a transição e por aí fora. Resumindo, Caitlyn Jenner esteve numa "bolha" protectora de senhora rica até à altura em que "explodiu" o seu verdadeiro eu e ela se apercebeu que o mundo não é todo cor-de-rosa e que as pessoas não são todas boazinhas e que aceitam tudo muito bem.

Jennifer Boylan e Candis Cayne foram aquelas que mais se destacaram, para mim, no abrir de olhos de Caitlyn. A experiência de vida de ambas e o que lhe transmitiam de forma directa, mas sem serem maternalistas, foi muito bom a nível público nesta série. Para um público ignorante na matéria e em tudo o que a rodeia, ambas focaram temas e vivências que são extremamente importantes para que as pessoas percebam que ser-se uma mulher trans não é uma escolha, nem uma opção e muito menos um capricho,

Com "I am Cait" revivi alguns episódios semelhantes da minha vida. Emocionei-me com muitas situações. Sorri com outras. Não sendo o género de programa que eu esperava que fosse, "I am Cait" acabou por se revelar minimamente educativo e foi mais do que entretenimento. Também foi emoção, aceitação, lágrimas. Mostrou que, como num programa supostamente "leve" se podem falar de coisas sérias e ensinar, mostrar a realidade de uma comunidade tão menosprezada e maltratada pela sociedade. E isto é mesmo muito importante. Demais.

Quanto a uma continuação da série, cá estarei para ver.