Lara's dreaming - Alma Feminina

Domingo, Novembro 20, 2011

TDOR 2011



Comemora-se dia 20 de Novembro o 13º International Transgender Day of Remembrance, um dia dedicado a todos aqueles que faleceram violentamente devido a crimes de ódio. De acordo com estimativas, foram mais de 221 as mortes de pessoas transexuais/transgénero desde o mesmo dia do ano passado, de acordo com o projecto Transrespect versus Transphobia (http://www.transrespect-transphobia.org). Uma média que já ultrapassa a do ano passado que era de uma morte dia sim, dia não.

Um preocupante aumento de violência mortal nota-se nos últimos 3 anos: 162 casos em 2009, 179 em 2010 e 223 em 2011. Estes números referem-se somente a casos noticiados, não reflectindo a totalidade mundial.

O TDOR iniciou-se em 1998. No dia 28 de Novembro desse ano, Rita Hester era selvaticamente esfaqueada mortalmente. Rita era uma nulher transexual estimada por todos quantos a conheciam. A sua morte despoletou o site online Remembering our dead (http://www.gender.org/remember/index.html#) no qual se tenta eternizar a memória das vítimas.

Uma vigília foi feita em sua memória, e foi essa vigília que deu origem ao Transgender day of Remembrance, que num ápice se tornou no International Transgender Day Of Remembrance, usualmente conhecido como TDOR.

Em Portugal mais um ano se passou sem conhecimento de nenhum caso de violência mortal contra nós. No entanto, e como está escrito (e muito bem) no site Remembering our dead “Aqueles que não conseguem lembrar o passado, estão condenados a repeti-lo.”, por isso nunca é demais relembrar-se a Gisberta e a Luna, duas vítimas da violência contra pessoas transexuais/transgénero. Que a sua memória não seja esquecida pelo menos pela nossa (quase inexistente) comunidade, já que pelos grupos e associações nacionais já parecem estar perdidas nas brumas das memórias que o tempo esqueceu.

Convém sempre lembrar que a violência contra as pessoas trans não se limita à parte física. Quantas vezes a violência verbal perpretada pela comunidade e mesmo no seio familiar não é um factor determinante para tentativas de suicídio? Isto também é violência contra as pessoas trans.

O facto de, em muitos países, não facultarem, por exemplo, a colocação de próteses no corpo provoca o uso de injecções de silicone industrial que não poucas vezes provoca infecções graves e mesmo a morte. Isto também é violência contra as pessoas trans.

O facto de, em muitos países, não autorizarem ou obstruírem ao máximo (caso de Portugal) determinadas cirurgias desejadas pelas pessoas trans provoca muitas vezes que essas pessoas tentem, por exemplo, remover os testículos em casa de forma artesanal (no caso das trans femininas) pode provocar infecções graves e eventualmente a morte. Isto também é violência contra as pessoas trans.

O facto de, em muitos países, não aceitarem o género com que essa pessoa se identifica, ou complicarem ao máximo a obtenção desse reconhecimento (caso de Portugal) pode provocar depressões graves e eventualmente suicídios. Isto também é violência contra as pessoas trans.

O facto de, em muitos países, não reconhecerem legalmente o género assumido por uma pessoa trans ou complicarem ao máximo esse reconhecimento sujeita-a à discriminação laboral, empurrando-a para o trabalho sexual, onde se presta a ser mais uma vítima de violência que não poucas vezes acaba em morte. Isto também é violência contra as pessoas trans.

O facto de, em muitos países, não reconhecerem legalmente o género assumido por uma pessoa trans ou complicarem ao máximo esse reconhecimento, impede que essa pessoa possa viver uma vida digna, forçando-a a viver em barracos onde se pode, por exemplo, morrer de frio num inverno. Isto também é violência contra as pessoas trans.

Não possuindo os dados referentes a todas as mortes que ocorreram desde o último TDOR, o que se pôde conseguir, para que pelo menos se guarde um minuto de silêncio em memória, é descrito de seguida:

As fotos que acompanham este comunicado foram propositadamente introduzidas para que se obtenha consciência real do que acontece. É substancialmente diferente ver-se do que somente ler-se. E o aumento da violência pressupõe a necessidade de uma denúncia mais forte e do não encobrimento por causa da sensibilidade de algumas pessoas. As pessoas podem ficar com a sensibilidade magoada, mas as pessoas trans fotografadas perderam a vida de modos demasiado cruéis e sádicos para que sejam censuradas.

México, Novembro de 2010, uma trans não identificada é abatida na zona de Chihuahua.
México, Novembro de 2010, uma trans não identificada é abatida na zona de Chihuahua. É a segunda em dois dias.
México, Novembro de 2010, Fabiola, 22 anos, mulher transgénero, é abatida a tiro no bar El Chicote em Chihuahua com 9 tiros na cabeça. A terceira em três dias.
India, Novembro de 2010, Asha Ansar (Gopiamma), mulher trans de 67 anos, é estrangulada em casa por quatro desconhecidos. Era a presidente do All India Hijra Community.
Paquistão, Novembro de 2010, Amir, mulher transexual é morta pela polícia.
Honduras, Novembro de 2010, Idania Roberta Sevilla Raudales, “Robertina”, de 58 anos, mulher transexual esteticista, é degolada, o corpo atado com um cabo de tv.
Brasil, Novembro de 2010, Gretchen de Ogum, mulher transexual de 45 anos, é abatida com dois tiros na cabeça dentro do seu carro por dois indivíduos de mota.
India, Dezembro de 2010, Kirat Pat, mulher transgénero é encontrada degolada
Jamaica, Dezembro de 2010, uma pessoa transgénero não identificada, de 26 anos, activista dos diritos LGBTTI é esfaqueada mortalmente.
Brasil, Dezembro de 2010, Jarro, mulher transexual é encontrada estrangulada, com as roupas semi-despidas.



India, Dezembro de 2010, Gopal Kinnar, hijra de 50 anos, é degolada a sua cabeça é partida com uma pedra por ladrões em sua casa.
Colombia, Dezembro de 2010, Pamela, muçher transexual, trabalhadora sexual, é abatida com um tiro na cabeça por um homem numa viatura.
Honduras, Dezembro de 2010, Lorenza Hernández, jovem mulher transexual de 23 anos, é violada, apedrejada mortalmente e o seu corpo queimado por elementos de um gangue.
Brazil, Dezembro de 2010, Mirelinha, mulher transexual é assassinada a tiro num café onde se encontrava com 4 amigas. 3 sobreviveram.
Brazil, Dezembro de 2010, Duda Top, mulher transexual é assassinada a tiro num café onde se encontrava com 4 amigas. 3 sobreviveram.
Bangladesh, Dezembro de 2010, Papia, transgénero ou intersexo de 32 anos, é espancada e atirada do topo de um prédio de seis andares.
Honduras, Dezembro de 2010, Cheo, mulher trans trabalhadora sexual, é encontrada morta por esfaqueamento.
Honduras, Dezembro de 2010, Lady Oscar Martínez Salgado, mulher transgénero de 45 anos é esfaqueada mortalmente inúmeras vezes em sua casa e o seu corpo queimado, supostamente por dois desconhecidos.
Brasil, Dezembro de 2010, Shelley, jovem trans de 22 anos, morre de embolia pulmonar por injecções de silicone dadas por outra trans.
Honduras, Janeiro de 2011, Cheo, jovem mulher transgénero é esfaqueada mortalmente numa rua de Tegucigalpa.
Honduras, Janeiro de 2011, Génesis, mulher trans entre 23 e 27 anos, é estarngulada por desconhecidos.
EUA, Janeiro de 2011, Chrissie Bates, mulher transexual de 45 anos, é esfaqueada mortalmente em casa.
Honduras, Janeiro de 2011, uma jovem mulher transexual não identificada é assassinada com múltiplos tiros.
Venezuela, Janeiro de 2011, Ángela S P García, jovem mulher trans de 18 anos, é assassinada.
Brasil, Janeiro de 2011, Márcia pereira, mulher trans trabalhadora sexual de 30 anos é abatida com um tiro na nuca.
Bolívia, Janeiro de 2011, Mini Fernández, mulher transexual trabalhadora sexual de 30 anos é estrangulada.
Beasil, Janeiro de 2011, Natasha Rosário dos Santos, mulher trans de 26 anos é morta a pedradas na cabeça.
Brasil, Janeiro de 2011, uma mulher trans não identificada é morta a tiros. O rosto ficou desfigurado.
India, Fevereiro de 2011, Sarubai ou Sarita, mulher trans de 40 anos, é encontrada morta dentro de um Wc de uma carruagem de comboio fechada.
Paquistão, fevereiro de 2011, Waseem Masih, mulher transgénero enforca-se com uma corda.
Itália, Fevereiro de 2011, Bea Schiekfer, mulher transexual de nacionalidade alemã, morre de frio na barraca onde era forçada a morar por ser trans.
México, fevereiro de 2011, E. González Gomez, mulher transexual de 25 anos, é abatida com vários tiros na cabeça e nas costas.
Malásia, Fevereiro de 2011, uma mulher trans não identificada, por volta dos 40 anos, foi assassinada supostamente por uma martelada dada por um homem de moto.
México, Fevereiro de 2011, o crpo de uma mulher trans emigrante hondurenha é encontrado num campo de cultivo.
EUA, Fevereiro de 2011, o corpo de Tyra Trent, jovem mulher trans de 25 anos, trabalhadora sexual, é encontrado num edifício abandonado. A morte foi por asfixia, não existem suspeitos nem motivo.
Brasil, Fevereiro de 2011, uma mulher trans não identificada, aparentando 40 anos, foi abatida a tiro por um motociclista.
Ecuador, Fevereiro de 2011, Tayra Evelyn Ormeño, mulher transsexual, activista e trabalhadora sexual é assassinada.
Brasil, Fevereiro de 2011, Aline Oneil de Castro, jovem trans trabalhadora sexual, é estrangulada poucas horas depois de completar 20 anos.
Brasil, Fevereiro de 2011, Priscila Brandão de Aguilar aka Tiffany, jovem mulher trans de 22 anos é assassinada com 9 tiros.
Brasil, Fevereiro de 2011, Valdecir, mulher transexual, é assassinada com tiros na cabeça e no pescoço.



Venezuela, Março de 2011, o corpo de uma jovem mulher trans é encontrado com um ferimento de bala e feridas de faca.
EUA, Março de 2011, Marcal Camero Tye, mulher trans, trabalhadora sexual, é abatida a tiro e o seu corpo arrastado centenas de metros por carro.
Indonesia, Março de 2011, Shakira, mulher transexual, activista, é abatida a tiro por indivíduos numa mota. Duas outras transexuais são atingidas.
Tailândia, Março de 2011, K. Jagrid, jovem mulher transexual de 23 anos suicida-se após descobrir que o seu companheiro tinha dois filhos de anterior relacionamento.
México, Março de 2011, uma jovem mulher transexual é assassinada a tiro juntamente com um homem em Chihuahua.
Colombia, Março de 2011, 'Leidy, la ecuatoriana', mulher trans, trabalhadora sexual, de 36 anos, é assassinada.
Brasil, Abril de 2011, uma mulher trans não identificada é assassinada a tiros.
Brasil, Abril de 2011, uma jovem trans de 24 anos, D. de Olveira é espancada e assassinada com mais de 30 facadas.
Turquia, Abril de 2011, R. B., uma trans de 36 anos é abatida a tiro. Duas outras ficam feridas vindo a morrer no hospital.
Turquia, Abril de 2011, M. K., uma trans de 26 anos é ferida a tiro vindo a morrer num hospital, juntamente com outras duas (uma morreu na rua, outra no hospital).
Turquia, Abril de 2011, Y. E., uma trans de 36 anos é ferida a tiro vindo a morrer num hospital, juntamente com outras duas (uma morreu na rua, outra no hospital).
India, Abril de 2011, Shakila, uma jovem transexual de 25 anos morre por lhe ser negada tratamento hospitalar por suspeita de ter SIDA. Não tinha.
Brasil, Abril de 2011, Bibi, mulher trans e trabalhadora sexual é assassinada com 7 facadas supostamente por um cliente.
México, Abril de 2011, Bárbara Lezama, mulher transexual trabalhadora sexual e activista é assassinada em sua casa. Tentaram estrangulá-la com um cabo mas acabou por morrer de um golpe de um tijolo na cabeça.
Venezuela, Abril de 2011, Samantha ou La Dominicana, mulher transexual de 39 anos, trabalhadora sexual, é esfaqueada mortalmente por um grupo de homens, juntamente com Kimberly Rubí.
Venezuela, Abril de 2011, Kimberly Rubí, mulher transexual de 17 anos, trabalhadora sexual, é esfaqueada mortalmente por um grupo de homens, juntamente com La Dominicana.
Venezuela, Maio de 2011, Luisa Bravo, mulher transexual de 18 anos, trabalhadora sexual, é esfaqueada mortalmente por um homem.
Brasil, Maio de 2011, Camile C. dos Anjos, mulher trans de 23 anos, trabalhadora sexual, é assassinada com 7 tiros supostamente por não ter troco para devolver.
Brasil, Maio de 2011, uma mulher transgénero não identificada, sem-abrigo, é espancada até a morte.
República Dominicana, Maio de 2011, Naomi Carmona Adames, mulher transexual de 27 anos, trabalhadora sexual, é encontrada numa poça de sangue em sua casa.



Brasil, Maio de 2011, A.O.C. da Cruz, mulher trans de 20 anos, é estrangulada e o corpo arrastado dezenas de metros.
Colombia, Junho de 2011, Gina Capello, mulher trans de 44 anos, morre após 4 dias de sofrimento por ter injectado silicone nas nádegas.
Porto Rico/EUA, Junho de 2011, Karlota Gómez. Peña, jovem trans de 19 anos, é abatida a tiros vindos de um carro em andamento.
México, Junho de 2011, Josimar Matilde Pineda, jovem trans de 19 anos, é assassinada com um golpe na cabeça entre outros.
Brasil, Junho de 2011, Maria do Bairro, mulher trans, trabalhadora sexual, é assassinada a pauladas e pedradas na cabeça.



EUA, Junho de 2011, N E Davis, mulher trans de 44 anos, trabalhadora sexual é abatida com um tiro na cabeça.
Colômbia, Junho de 2011, uma mulher trans não identificada teve a sua cabeça destroçada a pedradas ao resistir a ser violada.



Rússia, Junho de 2011, o corpo de uma jovem mulher trans é encontrado mos caminhos de ferro de Kazan em Moscovo. Apresentava dois ou três golpes na cabeça e a garganta cortada.
México, Julho de 2011, num ataque supostamente perpretado por narco-traficantes armados com metrelhadoras AK 47 contra um grupo de trabalhadoras sexuais, foi abatida uma jovem mulher trans, La Thalía, pelos 24 anos de idade.



Afeganistão, Julho de 2011, Zabi, mulher transexual, é assassinada, desmembrada e os seus restos enviados à família, depois de como é costume localmente, ter dançado num casamento em Kabul. Os agressores foram descritos como pertencendo à etnia Pastún.
Honduras, Julho de 2011, o corpo de uma mulher trans, não identificada, é encontrado num terreno baldio com uma ferida de arma de fogo no lado esquerdo da cabeça.
Chile, Julho de 2011, Cinthia González Rodríguez de 46 anos, trabalhadora sexual, é assassinada e roubada por um cliente, ex-futebolista.
EUA, Julho de 2011, Lashay Mclean, mulher trans de 23 anos é abatida a tiro por dois homens.
Venezuela, Julho de 2011, Samantha Nazareth, de 23 anos, é assassinada com 6 tiros.
Honduras, Julho de 2011, Nela E. Ramirez, mulher trans de 25 anos, da associação “Crisálidas-Trans Palada”, é assassinada com um tiro na cabeça ao regressar a casa de uma festa.
EUA, Julho de 2011, Dee, mulher trans de 47 anos, trabalhadora sexual, morre num incêndio no atrelado onde vivia.
Turquia, Julho de 2011, Didem, mulher trans, trabalhadora sexual, foi assassinada no distrito de Findikzade em Istambul com a garganta cortada por um cliente do facebook que supostamente ignorava que era trans.
Malásia, Julho de 2011, Aleesha Farhana, mulher transexual operada de 25 anos, morre num hospital depois de ter dado entrada com um severo ataque de ansiedade por lhe ter sido negada em tribunal a ateração de nome e género.
EUA, Agosto de 2011, Camila Guzman, mulher trans, trabalhadora sexual, 36 anos, é esfaqueada mortalmente em casa.
Brasil, Agosto de 2011, o corpo de Maria do Bairro, mulher trans, é encontrado com sinais de pancadas pelo corpo.
México. Agosto de 2011, uma mulher trans não identificada é assassinada, a face desfigurada com um solvente, o corpo enfiado numa mala, regada com gasolina e incendiada.
Colombia, Agosto de 2011, Yelkin Nikley Jiménez, de 25 anos, trans, é abatida a tiro juntamente com Jonathan Chinchía Manga de 22 anos.
Paquistão, Agosto de 2011, Wajahat, mulher trans de 21 anos é abatida a tiro juntamente com o seu companheiro, Kamran, de 28 anos por quererem casar.
Guatemala, Agosto de 2011, o corpo de uma mulher trans não identificada, por volta dos trinta anos, é encontrado esfaqueado e com sinais de estrangulamento.
Brasil, Agosto de 2011, o corpo de uma mulher trans não identificada é encontrado meio queimado num campo de futebol da região de Belo Horizonte. Foi amarrada na sua cama com atacadores torturada durante 3 horas com facadas, marretadas e o corpo queimado com óleo a ferver. Depois a arrastaram até um campo de futebol da região, aonde atearam fogo na vítima ainda viva.
Brasil, Agosto de 2011, R. da Silva, de 21 anos, Mister Piauí 2011 e sexto no Mister Brasil é abatido a tiro na casa de um homem, também abatido.
México, Setembro de 2011, "La China", jovem mulher trans de 20 anos, trabalhadora sexual, é espancada mortalmente possivelmente por um cliente e atirada a um lago.



Brasil, Setembro de 2011, uma mulher trans não identificada é assassinada num motel pelo homem que a acompanhava.
Colombia, Setembro de 2011, María Camila Parra "Ninia", mulher trans de 30 anos, récem-chegada de Roma, é assassinada dentro do seu carro com seis tiros. Nada foi roubado.
EUA, Setembro de 2011, uma mulher trans identificada como G. Gopalan, de 35 anos, é encontrada morta com ferimentos que incluem um trauma na face.
EUA, Setembro de 2011, Akeem Laurel, de 27 anos, mulher trans é abatida a tiro.
Cuba, Setembro de 2011, N L Garcia, mulher transexual de 34 anos, morre quando estava detida pela polícia numa das habituais rusgas anti-gays,les,trans por a polícia ter ignorado propositadamente que era hipertensa. Não foi realizada autopsia.



México, Setembro de 2011, o corpo de Brigitte, mulher transexual trabalhadora sexual, é deixado junto com outros 35 corpos na Plaza Las Américas, em Veracruz.
Brasil, Setembro de 2011, uma mulher trans não identificada, por volta dos 30 anos, é encontrada morta, as mãos amarradas, degolada e com uma paulada na cabeça.



Brasil, Setembro de 2011, uma mulher trans ainda não identificada é abatida a tiros numa paragem de autocarro no Rio de Janeiro.
EUA, Setembro de 2011, Lucie Parkin, de 36 anos, mulher trans é abatida com um tiro num quarto de motel em Hesperian Boulevard, San Jose.
Mauricias, Setembro de 2011, Shamir Mussan, mulher trans de 32 anos é espancada e esfaqueada mortalmente na barriga por um grupo de dez pessoas que a atacaram em casa.
Paquistão, Setembro de 2011, Faislur Rehman, jovem trans que se tinha submetida a uma cirurgia de correcção de sexo há 3 anos morre com fortes dores abdominais.
Turquia, Setembro de 2011, uma mulher trans ainda não identificada foi esfaqueada mortalmente em sua casa em Istambul.
Brasil, Setembro de 2011, uma mulher trans não identificada, trabalhadora sexual, é assassinada com pancadas na cabeça numa praia de Recife.
Venezuela, Outubro de 2011, o corpo de uma mulher trans é encontrado com 5 facadas no peito e cortes nas mãos, braços e joelhos.
Turquia, Outubro de 2011, uma mulher trans é abatida a tiro num hospital pelo seu irmão que assim lavou a honra da família.
Honduras, Outubro de 2011, Tierrita, mulher trans trabalhadora sexua de 25 anosl, é encontrada agonizante por esfaqueamento por outras trans e morre no hospital.
Perú, Outubro de 2011, o corpo de uma jovem mulher trans é encontrado carbonizado em Lima com visíveis sinais de tortura e esfaqueamento.
Brasil, Outubro de 2011, H.P.Menezes, mulher trans de 28 anos, é assassinada a pauladas e o corpo ficou com partes queimadas por tentarem atear fogo.



Brasil, Outubro de 2011, Joana Farias, mulher trans de 41 anos, é abatida com cinco tiros na cabeça supostamente por desentendimentos sobre locais de engate.
Colombia, Outubro de 2011, Melissa ou Roberta, mulher trans indigente, por volta dos 40 anos, alcoólica, toxicodependente, é encontrada morta. Encontrava-se doente há dias.
Brasil, Outubro de 2011, Sandy, uma mulher trans trabalhadora sexual, entre os 25 e 30 anos, é assassinada com seis tiros por uma pessoa numa moto.
Brasil, Outubro de 2011, Renata Desireè, mulher trans de 18 anos, é encontrada morta com vários tiros na nuca.
Brasil, Outubro de 2011, Arimatéia da Silva, mulher trans de 27 anos, trabalhadora sexual, é assassinada a tiros.
México, Outubro de 2011, Vargas Bringas de 26 anos, mulher trans é esfaqueada mortalmente.
EUA, Outubro de 2011, Rashaun Bernard Howard, mulher trans de 26 anos, é abatida a tiro.
Brasil, Outubro de 2011, uma mulher trans não identificada é apedrejada mortalmente junto com uma amiga.
Brasil, Outubro de 2011, uma mulher trans não identificada é apedrejada mortalmente junto com uma amiga.
Venezuela, Outubro de 2011, Cristian Yoneiker Torres Escuraima, de 19 anos, mulher trans trabalhadora sexual, é crivada de balas por um grupo de desconhecidos.
Brasil, Outubro de 2011, Malu Moraes, mulher trans de 34 anos, trabalhadora sexual, é esfaqueada por um indivíduo e falece posteriormente num hospital.
Espanha, Outubro de 2011, Astrid Carolina López Ceice, mulher trans de 30 anos de origem colombiana, é esfaqueada mortalmente por um homem com quem mantinha contacto ocasional e o seu corpo enterrado no jardim durante 20 dias.
EUA, Outubro de 2011, Shelley "Treasure" Hilliard, jovem mulher trans de 19 anos desaparece no dia 23. Mais tarde no mesmo dia o seu torso queimado é descoberto. Só foi identificada em Novembro.
Itália, Outubro de 2011, o cadáver de uma mulher trans não identificada aparentando ter entre 20 e 30 anos, é encontrado num terreno frequentado por trabalhadoras sexuais.
Brasil, Novembro de 2011, Luana, mulher trans de 18 anos, trabalhadora sexual, é assassinada com um tiro na cabeça quando ia para casa com uma amiga.



República Dominicana, Novembro de 2011, o corpo de uma mulher trans não identificada é encontrado afogado numa lagoa com os pés e mãos atados.
Venezuela, Novembro de 2011, Y M A Zambrano, homem trans de 40 anos é abatido a tiro por dois homens numa mota.
Perú, Novembro 2011, Patty Ruiz Saldaña, mulher trans, sai de uma discoteca com um desconhecido. O seu corpo é encontrado posteriormente esfaqueado e degolado.
França, Novembro de 2011, uma mulher transexual de 27 anos de nacionalidade israelita, em coma desde 20 de Outubro por ter sofrido de infiltrações de uma injecção de silicone nas nádegas, falece no hospital.
Colombia, Novembro 2011, uma jovem trans de 20 anos é assassinada com um golpe com um pau na cabeça por um grupo de homens.
EUA, Novembro de 2011, Cassidy Vickers, de 32 anos, é abatida com um tiro no peito.

É para denunciar estes casos que o TDOR existe.

É para homenagear estas mortes que o TDOR existe.

É para que estes casos não caiam no esquecimento que o TDOR existe.

É para tentar unir as pessoas trans que o TDOR existe.

É para que casos destes não se repitam que o TDOR existe.


Lamentemos e homenageemos estas pessoas com um minuto de silêncio.

Segunda-feira, Outubro 10, 2011

Abraçar os sonhos

Noites turbulentas em que os sonhos transmitem algo de real com a surrealidade dos mesmos. Penso às vezes em como era bom que, apesar de tudo, a minha vida fosse mais parecida com os meus sonhos do que com a realidade.

Pelo menos aquilo a que chamamos realidade. Em que tudo dói, tudo custa, pouco ou nada se consegue sem sofrimento. A vida em que achamos que alguém nos ajuda, mas que chegamos à conclusão que afinal estamos sozinhos. Que a solidão é inerente ao ser humano.

Que ninguém te ajuda sem querer nada em troca. Que, quando podem, te lixam a vida sem pensar duas vezes. Que te discriminam apenas pelo corpo que tu tens. Que te tratam com preconceito apenas por seres como és.

Uma realidade em que vês as pessoas de quem gostas adoecerem e morrerem. Em que vês a tua cara envelhecer no espelho. Em que algo a que chamam amor não passar de uma palavra sem sentido. Amor não existe. Não no sentido do enamoramento entre duas pessoas. Existe entre uma mãe e um filho. Às vezes entre irmãos. Não nos amantes.

O amor é bonito nos livros, nas palavras dos poetas, nas prosas dos escritores. Esse suposto sentimento só traz sofrimento na vida real. Algo bem diferente dos poemas de amor. A vida real não é compatível com o amor. Apenas os sonhos são.

Gostava de adormecer e não acordar mais. Sonhar eternamente. Ser quem nasci nesta vida eternamente. Sem ter quem me julgasse, maltratasse, humilhasse, discriminasse. Deixar-me navegar pelas ondas dos sonhos, abraçar as paisagens oníricas e não ter noção do tempo.

40 anos a lutar e a tentar lutar é muito. Estou muito cansada. Cansada porque, no final, não sou eu que controlo a minha vida real, são os outros. Supostamente são eles que decidem quem eu sou ou quem eu deveria ser.

Nos meus sonhos sou eu que decido tudo. Sou eu que pinto as cores do meu destino, que escolho por que caminho vou. Tudo é suave, irreal, eu sei, mas bonito. Calmo, respeitador, azul.

A vida real é insuportável. Pelo menos para mim. Não consigo respirar, não consigo fazê-la fluir. Não consigo que ela me dê o que eu tanto lhe dou.

Quero dormir e sonhar para sempre. Descansar junto das nuvens. Beber os oceanos. Ser, finalmente, quem eu sou.

Terça-feira, Outubro 04, 2011

Comunicado do Grupo Transexual Portugal: Sonegação de informação em Coimbra

Desde a primeira notícia sobre as cirurgias de correcção de sexo em Coimbra que o grupo Transexual Portugal tem aguardado com expectativa a libertação de informação pertinente sobre as mesmas, facto que até à data não aconteceu.

Nesse sentido, o grupo Transexual Portugal, confrontado com a falta de informação disponibilizada e pensando no interesse e direitos das pessoas transexuais portuguesas, enviou no dia 13 de Setembro de 2011 04:24 o seguinte email dirigido ao Dr. António Reis Marques com questões que várias pessoas transexuais consideraram ser importantes:


"O Grupo Transexual Portugal vem por este meio felicitar a iniciativa dos HUC em dar continuidade às cirurgias de redesignação de sexo paradas desde a reforma do Dr. Décio.

Não obstante, a ausência de informação mais pormenorizada sobre a iniciativa e sobre as cirurgias propriamente ditas, leva a que tenham sido formuladas algumas questões, sobre as quais agradecemos resposta pormenorizada.

As questões levantadas por pessoas transexuais que se encontram em várias fases do processo são as seguintes:

- Considerando as inovações trazidas pelo Dr. Décio no campo destas cirurgias, nomeadamente nas FtM, traduzidas num acréscimo real de qualidade no resultado final, qual a razão da decisão de não se ter dado continuidade a este trabalho?

- No actual momento de crise económica, não ficou mais caro ir-se ao estrangeiro receber formação em vez de se dar continuidade ao trabalho nacional que tão bons resultados tinha apresentado na qualidade final?

- A que país foram, especificamente, aprender as técnicas cirúrgicas e que especialistas foram? Sabe-se que existem três ginecologistas, três urologistas, três cirurgiões plásticos mas não se sabe quem são estes especialistas nem quais deles foram.

- Com que especialistas estrangeiros foi recebida essa formação? Quanto tempo durou?

- Considerando a existência de várias técnicas existentes com variados resultados de qualidade, que técnica foi aprendida na formação?

- Em que medida essas técnicas inovam as usadas nacionalmente num acrescento de qualidade final ou em que medida essas técnicas mantêm a qualidade nacional, nomeadamente nos grandes e pequenos lábios no caso das neovaginas, e nos excertos para o pénis no outro caso? E em relação à lubrificação das neovaginas que ficavam com alguma, embora pouca?

- Que critérios estão na origem da selecção feita pelos HUC para as cirurgias? São baseadas na antiguidade ou existem outros critérios?

- Próteses mamárias, como vai ser para quem deseje iniciar os procedimentos cirúrgicos por aí? Um caso concreto: uma pessoa tem expansores e encontra-se a aguardar as próteses "definitivas". Como deve proceder? É contactada? Deve contactar? Contactar quem?


Agradecendo antecipadamente
Pelo Grupo Transexual Portugal
Eduarda Santos e Lara Crespo
"


Encontramo-nos já em Outubro e não obtivémos resposta até à data, pelo que o Grupo Transexual Portugal considera:

- Uma grave falta de ética e de moral o estar-se a sonegar informação pertinente sobre cirurgias a que as pessoas transexuais que assim o desejem se vão submeter.

- O estar-se a esconder a informação pode dar azo a dúvidas sobre as mesmas e sobre os profissionais que as vão realizar, não reflectindo a clareza e transparência que estes processos deviam ter.

O Grupo Transexual Portugal exorta todas as pessoas transexuais a, quando forem chamadas a Coimbra, insistirem na resposta a estas e outras dúvidas que possam ter, sendo que na recusa da disponibilização das mesmas, a apresentarem queixa devido à recusa em facultar a informação que considerem necessária.

O grupo Transexual Portugal exorta também as pessoas transexuais para que não se submetam a estas cirurgias enquanto a informação que considerem necessária não seja disponibilizada, bem como à denúncia pública destas situações.

Temos direito à informação sobre toda e qualquer cirurgia a que voluntariamente nos vamos submeter e não abdicaremos desse direito nem aceitaremos placidamente a sonegação do mesmo.

Pelo Grupo Transexual Portugal
Eduarda Santos e Lara Crespo

Sexta-feira, Setembro 09, 2011

Poeira dos tempos

Ultimamente tenho pensado muito no meu percurso emocional até à minha idade actual, os 40 anos.
Fui uma criança alegre, mas não feliz. Fui uma adolescente confundida com um mundo em que sentia não se encaixar. Fui uma mulher que se travestiu de homem durante tempo demais. Sou uma mulher madura, o que me traz alguns benefícios e também grandes inconvenientes, como ver com mais lucidez todo este percurso de vida até agora.

Sempre fui demasiado dada segundo os padrões sociais a que, pelos vistos, a esmagadora maioria das pessoas está habituada. Sempre fui carinhosa com as pessoas, cultivei muito a cultura do toque, coisa que as pessoas detestam. E eu aprendi isso e muito mais da pior maneira. Com rejeição, com agressão, com incompreensão.

Acho que todos nós nascemos muito vulneráveis emocionalmente (e não só). E com a aprendizagem do que, supostamente, está correcto socialmente lá começamos a enfrentar o mundo. Mas acho que, até aí, fui rebelde. Quis fazer tudo à minha maneira. Só porque me batiam na rua, na escola, porque haveria eu de bater de volta? Não percebia na altura. Só porque eu era carinhosa com alguém de quem gostava, porque é que essa pessoa reagia mal e me afastava? Seria eu uma melga? Muito provavelmente seria. Mas uma criança carente não aprende com rejeição como fazer as coisas, partindo do princípio que são as mais "correctas" politicamente ou não.

As lambadas começaram muito cedo. Quem tem acompanhado este blog já sabe disso, e para quem acabou de cair aqui de pára-quedas, eu sempre estive no local errado à hora errada. Aquilo que hoje em dia é chamado de "bullying" sempre aconteceu, como todos sabemos, e eu não fui uma excepção, muito antes pelo contrário. Mas pior do que ser maltratada por quem mal conheces é sentires-te maltratada por quem gostas.

Devido ao meu feitio e à minha personalidade, sempre tive tendência para agradar aos outros, ser simpática, risonha, meiga, enfim aquelas coisas que quem me conhece da net nem imaginava que eu poderia ser, e quem me conhece pessoalmente pode ter, ou não, uma noção de que a Lara é uma "boa pessoa" (whatever that means).

Dei demasiada confiança a toda a gente e paguei bem caro por isso. E este é o fulcro da questão. Não se pode ser sensível aos olhos dos outros. Não se pode dar sem pedir nada em troca. Não se pode ser e deixar ser. Não se pode confiar, porque te vão lixar à primeira hipótese. Porque este mundo não é feito de pessoas que nasceram "naturalmente boas". Acredito e quero acreditar que as há, mas a maioria nasceram "naturalmente más". E isso faz com que eu não possa confiar.

Se hoje em dia criei as defesas que criei, foi graças a um sem número de factores, desde ao facto de ser altamente discriminada por ser uma mulher transexual até ter dado demasiada confiança e ter acreditado nas pessoas. Sim, porque poucas são as pessoas em quem se pode acreditar. Poucas são aquelas que recebem um simples beijo teu na bochecha com um sorriso. Poucas são aquelas que te deixam chorar no seu colo quando estás triste.

Desiludida? Sim, estou muito desiludida com as pessoas. Nada de novo. Desiludi-me cedo, ou melhor dizendo, deixei de me iludir. E os anos passarem ajudou muito neste processo, porque sejam as outras pessoas A ou B, mais cedo ou mais tarde revelam-se. E eu estou cá para ver. E já vi muita coisa. Fui muito magoada, sem razão alguma. Acreditei em quem não deveria ter acreditado. Fui emocionalmente "sugada" por muitas pessoas que fazem do mal-estar dos outros o seu desporto favorito.

Sobrevivi. Tenho mazelas, obviamente. Tornei-me numa pessoa aparentemente diferente. Aprendi a proteger-me às minhas custas, sem ajuda de ninguém. E, hoje em dia, sei exactamente com quem posso contar ao meu lado. Já não vou em balelas, e odeio que me passem atestados de estupidez. Sim, porque eu posso ser muita coisa, mas estúpida não sou de certeza.

Fui e sou posta de lado só por ser quem sou? "Epá, a gaja tem mau feitio e tal, e ainda por cima é trans?" Meus amigos, por mim é na boa. Só desejo ao meu lado quem, na realidade, deseja esse posto. Quanto aos outros, sinceramente quero lá bem saber. Sejam quem forem.

Se há coisa que a vida me ensinou foi a separar o trigo do joio. E, apesar de tudo, tenho amigos. E isso é o mais importante, é o que me vai dando forças para continuar. Há pessoas que nunca deveriam ter nascido, e esse é o meu caso. Eu não nasci para viver neste mundo. Mas foi assim que aconteceu. E quando chegar a altura aí vou eu. Com a consciência totalmente tranquila.

E não, não dou o direito a ninguém, absolutamente ninguém, de me julgar ou opinar sobre mim sem me conhecer. E quando digo conhecer é mesmo isso "conhecer". Vai mais longe do que ver, do que observar, do que ouvir, do que ler. É olhar nos meus olhos e saber quem eu sou. Só a esses eu dou crédito. Quanto aos outros, os cães ladram e a caravana passa.

Com a lucidez da idade vem também esta certeza. Sou, fui e sempre serei a mesma com a minha verdade, para aqueles que também sempre o foram para mim. E só esses ficam. O resto é poeira dos tempos na minha memória.

Quarta-feira, Agosto 31, 2011

Comunicado do grupo Transexual Portugal sobre o artigo de opinião "Igualdade de género ou falsa identidade" do jornal Público

No dia 29 deste mês, o jornal Público, na sua edição em papel, publicou um artigo de opinião, transcrito de seguida a fim de informar quem não o leu.


Igualdade de género ou falsa identidade
por Gonçalo Portocarrero de Almada
Se se permite, tão facilmente e totalmente grátis, a mudança de género, por que não também a de espécie?

Quem viveu conscientemente o 25 de Abril, talvez ainda conserve, entre outras recordações, a lembrança de uma canção revolucionária em que, a páginas tantas, se badalava:“ Uma gaivota, voava, voava, asas de vento, coração de mar. Como ela, somos livres, somos livres de voar”.

Como nunca mais ouvi aquela melodiosa voz, temi que, embalada por um tão sugestivo texto, a dita cançonetista tivesse mesmo voado para parte incerta. Ou que,tendo desafiado as leis da gravidade, a experiência lhe tivesse sido fatal. Felizmente nenhuma destas aziagas hipóteses se confirmou, pelo que é de supor que ainda esteja disponível para ser de novo a voz do PREC, ou seja, do processo revolucionário em curso. A sua histórica balada é, com efeito, um magnífico hino à nova e subversiva política da identidade de género em que o anterior Governo, à falta de mais urgente e necessária reforma social, tão entusiasticamente se empenhou, depois de ter empenhado, com indiscutível êxito, o país.

Entende-se modernamente que a identidade pessoal não deve ser aferida por circunstâncias objectivas, como eram antigamente o sexo, a idade, a altura e o peso, mas sim por um acto libérrimo da vontade de cada qual. Assim, se um macho quer ser ofi ialmente fêmea, o Estado obedece ao capricho do cidadão e falsifica, a seu bel-prazer, o respectivo registo de identidade. Portanto, pela mesma razão, se uma septuagenária, de um metro de estatura e pesando cinco arrobas, quiser ser oficialmente uma menina de vinte anos, de um metro e setenta e quarenta quilos, também deveria poder sê-lo, se de facto se sente tão jovem, alta e leve quanto o dito
sujeito se acha feminino. Ou será que o faz-de-conta é válido para o sexo, mas já não para a idade, a altura e o peso?

Mas, se se permite, tão facilmente e totalmente grátis, a mudança de género, por que não também a de espécie?! Se o sexo já não é algo objectivo e predeterminado geneticamente, por que o há-de ser a natureza? Se a mulher pode “virar” homem e vice-versa, por uma simples declaração de vontade, por que não pode ser alguém, como Fernão Capelo, gaivota?!

Quem não gostaria de obter, oficialmente, o estatuto jurídico de ave protegida?! Não passarinho, que releva alguma inferioridade, nem passarão, que sugere algum governante ou administrador de empresa pública, mas pássaro, como a gaivota da canção, para ser livre, livre de voar! Para além da isenção de impostos e a inimputabilidade penal, a condição aviária tem grandes vantagens também ao nível da viação que, neste caso, passa a ser, muito propriamente, aviação.

A estas e outras razões gerais tenho a acrescentar umagratificante experiência pessoal quase-aviária. No ano passado, ao sofrer um acidente, tive que esperar pela ambulância, no lugar do sinistro, cerca de uma hora. Porém, quando na urgência do hospital me colocaram uma pulseira colorida, fui logo objecto dos mais extremosos e diligentes cuidados médicos. Enquanto ser humano, mereci pouca atenção, mas assim que, graças à bendita anilha, me confundiram com uma ave, beneficiei de imediato da principesca protecção dispensada às espécies em vias de extinção. Uma pessoa pode ser negligenciada e até impunemente morta antes de nascer, mas um animal protegido não pode ser maltratado. Moral da história: humano nunca mais! Ser ave é que está a dar!

Um slogan revolucionário exigia: 25 de Abril sempre! Não chegámos a tanto, mas, de certo modo, pode-se dizer que agora, graças à famigerada igualdade de género, todos os dias são dias de 1 de Abril, porque são dias de mentiras. Talvez não fosse despropositado criar um dia
anual da verdade, em que cada qual, mais por via de excepção do que por regra, seja, muito originalmente, o que de facto é.

Licenciado em Filosofia e vice-presidente da Confederação Nacional das Associações de Família”


O grupo Transexual Portugal vem por este meio demonstrar o seu mais profundo repúdio pelas diatribes e falsas presunções escritas pelo autor Gonçalo Portocarrero de Almada no referido artigo de opinião.
 
Com efeito este senhor demonstra uma total ignorância sobre o assunto que foca. Parece ignorar que, para se aceder à alteração de nome e género na documentação oficial, a pessoa transexual tem de passar por uma infinidade de exames exaustivos durante muito mais tempo do que se pensa ou se quer fazer acreditar. Portanto, ao alterar o seu nome e género encontra--se apoiada num diagnóstico exaustivo e não num qualquer acto subversivo de um qualquer governo.
 
E já que foca o assunto, esse senhor ainda não reparou que o estado em que o país chegou se deve não tanto aos sucessivos governos que tivémos (PSD e PS) mas mais a um ataque concertado ao Euro? Espanta que um licenciado em filosofia não tenha reparado numa tal evidência.
 
Mais demonstra de seguida uma total ignorância e compreensão do que é a identidade de género e do seu papel como parte determinante no género de cada ser humano. Troca os valores, pois efectivamente é antes da mudança que a identidade é uma "falsificação".
 
Também confunde a identidade de género com masoquismo, pois uma pessoa que "por capricho" deseje tal mudança para passar o resto da vida a "levar" com "brindes" deste tipo e outras discriminações e mesmo ofensas psicológicas e à sua integridade física só pode ser masoquista mesmo. Portanto a afirmação do "capricho" é bem demonstrativa desta confusão e da ignorância que tem sobre o assunto. É que a identidade de género não é escolha nenhuma, logo não pode ser capricho.
 
Percebe-se bem a razão deste tipo de discurso, nomeadamente o saudosismo expresso embora de forma encoberta, pelos idos tempos de antes do 25 de Abril, quando se sabe que a pessoa em causa é padre, pormenor que se esqueceu de mencionar. E como se sabe, a Igreja tinha um papel relevante de apoio ao regime, com fábulas que indicavam que quase mais valia ser pobre do que ser-se rico. E como se sabe, com os constantes e ininterruptos casos de pedofilia no seio da dita, qualquer representante dessa instituição tem pouca moral para criticar ou ajuizar.
 
Isto a juntar aos factos da instituição ter ajudado criminosos nazis, no final da 2ª Guerra Mundial, a escaparem ao julgamento dos seus crimes, fornecendo documentação falsa a muitos que fugiram para a América do Sul, nomeadamente Argentina. Isto põe em dúvida a moral de qualificarem algo como "falsidades". Como se costuma dizer "quem tem telhados de vidro não atira pedras ao céu".
 
Tal como o autor, lamenta-se que não se possa mudar de espécie. Não que este senhor tivesse alguma espécie que o desejasse acolher, mas por ter de dividir a humanidade com pessoas deste calibre. Mas diga-se em abono da verdade que, pelo menos na imputabilidade e nos impostos quem assim fala encontra-se em muito melhor posição que a restante população portuguesa, não precisa ser pássaro para isso. Porque pássaro engloba inúmeras espécies e ainda podia acontecer que, em vez de se ser um Fernão Capelo gaivota podia ser-se um abutre.
 
Curiosamente mesmo as espécies de aves protegidas são mortas antes de nascerem, portanto ainda no ovo, entenda-se. Por outros predadores e mesmo por outras aves. Aconselhava este senhor a ver mais documentários sobre a natureza, não são difíceis de encontrar, ao fim de semana na SIC e nos canais por cabo da National Geographic e Odisseia.
 
Remata com uma alusão à igualdade de género que compara a uma mentira. Logo, como bom representante da instituição a que pertence, nega às mulheres os mesmos direitos que detêm os homens. Com efeito, e sem nenhuma razão plausível, é negado às mulheres, por exemplo, o direito do sacerdócio. Portanto obviamente que este senhor não pode aceitar a igualdade de géneros. Nem devia desejar um dia da verdade. Podia ser descoberto como um preconceituoso, cheio de ódio, mentalmente incapaz de acompanhar o evoluir dos tempos e das descobertas científicas, um verdadeiro saudosista do antigamente.
 
O grupo Transexual Portugal lamenta também que este tipo de pessoas tenha voz num jornal com a qualidade a que nos habituou o jornal Público. Considera que este tipo de discurso não contribui em nada para a manutenção dos níveis de qualidade a que esta publicação nos habituou. Muito pelo contrário, discursos deste tipo, que nada mais fazem do que expôr as limitações mentais, desconhecimento e preconceitos de quem os escreve não são dignos deste jornal, sendo mais indicados para pasquins ou boletins de grupos de extrema direita, nunca para um jornal que tem primado por uma isenção exemplar.
 
Pelo grupo Transexual Portugal
Eduarda Santos e Lara Crespo

(A intenção original era enviar este Comunicado como Direito de Resposta para o jornal “Público”, mas visto que este não possui uma alternativa de envio electrónico, limitando-se a ter um endereço normal de correio, este Comunicado vai ser sómente distribuido por via electrónica.)

Quinta-feira, Agosto 25, 2011

Predadores sexuais - as garras do mal


Há bastante tempo atrás escrevi neste blog sobre os predadores sexuais. Tema que cada vez mais vem à baila, seja porque eles têm mais formas de se "espalhar" através das redes sociais, seja por causa do mediatismo de alguns casos, como o do dito "senhor" que trabalhava (ou trabalha?) numa estação de televisão nacional, e que, além de pôr idades diversas em cada perfil que tinha em diferentes redes sociais, foi denunciado por ter tido relações sexuais com uma miúda de 13 anos.

Quando, na altura, escrevi sobre os predadores sexuais, fui muito atacada por alguns senhores que fizeram o favor ou de comentar o meu post, ou de me enviarem emails "elucidativos". Tudo aqueles lugares-comuns do "não se esqueça de que também existem mulheres predadoras", do "nós (homens) não somos todos uns tarados", ou do "só vai para a cama connosco quem quer".

Ora bem, em primeiro lugar, obviamente que também há mulheres predadoras. Só que elas funcionam de forma diferente, e são bem mais subtis e inteligentes que os homens predadores. Já me cruzei com algumas em redes sociais, e elas encaram estas atitudes predatórias como uma sublimação do "girl power", mais do que uma pura satisfação sensorial.

Em relação aos homens não serem todos uns tarados, concordo. Só são tarados uns 90 por cento. E ainda por cima são básicos. Na sua maioria. Não se sabe bem se será da testosterona, mas que são básicos são, o que não faz, atenção, com que não sejam inteligentes e manipuladores. Já ultrapassámos aquela ideia antiga do "espalhar a sementinha", e passámos para a predação pura e dura. Como as situações por que fazem passar a maioria das mulheres que seduzem com mentiras.

E aqui chegamos ao "só vai para a cama comigo quem quer". Claro. Eu falei em predadores, não em violadores. Só que as consequências do que estes homens fazem acabam, muitas vezes, por ser piores do que violações. Um predador sexual é um mentiroso compulsivo, mas consciente do que faz. Regra geral é bonito, apresenta-se bem, é extremamente inteligente, mas denuncia-se ao se mostrar básico.

Quando refiro esta faceta do ser "básico", refiro-me ao mesmo tipo de conversas, seguidas dos mesmos assuntos, tudo embrulhado num interesse profundo que tem pela mulher com quem fala. O problema é que estas mulheres se deixam envolver de verdade e nunca lhes ocorre que tudo, sem excepção, do que eles lhes contaram acerca deles é absolutamente mentira.

E sim, elas vão para a cama ter sexo com eles porque querem. Porque estão apaixonadas por algo que não passa de uma ilusão. Porque ele disse que era solteiro ou divorciado, ou em processo de separação e afinal é casado. Porque ele é CEO de uma multinacional e não passa de um empregado de escritório - o que está aqui em causa é a mentira, não uma profissão ser melhor que a outra. Que quer começar um relacionamento com ela, sendo que ela não passa de mais uma numa lista infindável de conquistas num livrinho preto.

E o sonho acaba tão rápido como começou. Elas envolvem-se e querem mais. Só que o "mais" não existe. Eles não querem mais nada. Nem nunca quiseram. Elas serviram um pérfido propósito de os satisfazer durante um bocado. E nada fica. Para elas. São usadas e abusadas e violadas psicológica e emocionalmente. Principalmente quando descobrem que tudo era mentira. Que se entregaram a uma personagem e não a uma pessoa.

E eu sei do que falo, pois sou mulher, e apesar de não ter um conhecimento exaustivo de predadores sexuais, muitos são os que se aproximam de mulheres transexuais como eu. E também eu já caí nestas armadilhas. Por isso sou desconfiada, fria e muitas vezes mesmo insensível. Porque quem cai uma vez, não vai querer de certeza cair duas. Disso vos dou a certeza.

Para as mulheres (não interessa se são biológicas ou transexuais) que me lêem, muita atenção quando o filme é demasiado bonito. Quando eles vos dão demasiada atenção. Quando trocam ideias íntimas e pessoais. Quando sabem muito sobre vocês. Tudo isto são sinais de alerta. Não se deixem ir. É um poço sem fundo. Sigam a vossa intuição e tentem não ser demasiado emocionais.

Por isto tudo e muito mais fazem todo o sentido as Slutwalks. Porque nós somos mulheres e o corpo é nosso. E porque até podíamos querer, mas agora já não queremos. Não tenham medo, assumam a vossa posição. Somos seres humanos, pessoas, não objectos.

Quarta-feira, Junho 22, 2011

Lavar a alma: transfobia misógina

Fiz 40 anos há uns dias atrás. Nesta altura tudo me vem à cabeça, desde memórias distantes de criança, a coisas muito recentes. Fala-se muito ultimamente sobre outro assunto, a "linda" estória do polícia canadiano que afirmou que as mulheres "puxam" pela violação ao se vestirem como umas "sluts" (vadias, putas, ordinárias). Quando li isto, nem podia acreditar que em pleno século XXI ainda existissem este tipo de mentalidades (pelos vistos mais comuns do que eu pensava). O que me leva à questão de: quem é que tem alguma coisa a ver com a forma como me visto, com a forma como me identifico, quem dá o direito seja a quem for de me julgar?

A obrigação dos outros era respeitar-me acima de tudo, independentemente de como me visto, do que pareço ou não, como eu os respeito a eles. Infelizmente, não é num mundo assim que vivemos, e cada dia que passa, vejo que não pertenço, em definitivo a este mundo, a este planeta.

Se, no caso das mulheres biológicas se põe a questão da constante misoginia e falta de respeito, comigo, que sou transexual põe-se isso e mais algumas coisas. E aqui entra o factor que as americanas e brasileiras adoram esmiuçar, o ser-se ou não "passável". Ou seja, passar-se ou não por uma mulher biológica.

Obviamente que quem tem dinheiro e está disposta a isso pode sempre fazer uma Face Feminilization Surgery (Cirurgia de Feminilização Facial), dar uns retoques com colagénio e botox, raspar a maçã de adão, fazer depilação definitiva no rosto (laser ou electrólise) e por aí fora. Quem está desempregada como eu, que não tem fonte de rendimento e que vive de ajudas, resta-lhe raspar a cara com uma lâmina, porque já não tem sequer dinheiro para fazer depilação facial com cera. Claro que também não fiz nenhuma das cirurgias e/ou tratamentos mencionados atrás, o que faz de mim uma, obviamente "não (ou nunca) passável".

E quase todos os dias em que saio à rua vejo isso. Olham para mim - curiosamente são mais elas que olham - e gozam, riem-se, mandam umas bocas. Sim, afinal eu não sou "passável", não nasci biologicamente mulher, e elas devem sentir-se melhor e mais mulheres por me rebaixarem. E com eles poucas são as diferenças. Apenas uma: como tenho mamas, sempre olham mais para aí e desviam a atenção do rosto e pescoço. A transfobia misógina está instalada, tanto entre eles, como entre elas.

Só que estou farta de ser humilhada, pisada e espezinhada. Fui-o ao longo da minha vida toda, quase por toda a gente, mas agora chega. E existiram várias gotas-de-água, sendo que a última foi no dia da marcha do orgulho LGBT, em Lisboa, quando fui deixar uma amiga ao autocarro, visto que eu estava doente e não podia ir. De um café junto à paragem, na zona onde eu nasci, cresci e sempre vivi até há uns anos atrás, uma palhaça de uma empregadeca de mesa olha para mim, começa a rir-se a bandeiras despregadas ao mesmo tempo que apontava na minha direcção, o que chamou de imediato as atenções para mim. Não contente, foi chamando gente - mulheres e homens que por ali estavam - e numa rua cheia de gente em pleno sábado à tarde, fui humilhada como há muito não era. Era tudo a rir, a apontarem para mim, a mandarem bitaites que eu fiz questão de esquecer.

Calmamente, deixei a minha amiga no autocarro, virei as costas e fui para casa dos meus pais. Triste e magoada com isto e com outro tipo de situações que me têm acontecido, desabafei com a minha mãe. Tentando ser compeensiva, porque ela não entende o que eu sou, aconselhou-me a usar uma "basezita" para disfarçar a marca da barba, e não usar decotes para que não se note muito o peito. Tadinha, eu compreendo que ela apenas me queria (e quer) reconfortar e proteger, mas não será nunca assim, nem ela tem o poder para o fazer, como quando eu era criança. Mas valeu a tua intenção, mãe.

"Sluts"? Mulheres transexuais "passáveis"? Mas o que é isto? Quer dizer, não tenho o direito a ser respeitada, a dizer não, a dizer basta? Era só o que mais faltava! Identifico-me com uma "slut", sei que não sou"passável" nem bonita, mas não é por isso que não vou continuar a ser eu. Sim, porque é mais fácil mudarem vocês do que eu! Já chega desta transfobia misógina!

Sexta-feira, Junho 03, 2011

Lavar a alma: Gisberta e o "bullying"

Ultimamente, não se tem visto outra coisa nos telejornais e em todo o tipo de média que não casos do recentemente chamado "bullying". Ele é a rapariga violentamente agredida por duas mais velhas, é o fuzileiro espancado pelos colegas, é mais uma miúda agredida e colocada dentro de um contentor de lixo por colegas da escola, enfim, parece que de repente se acordou para algo há muito adormecido, e que, quer queiram quer não, sempre existiu.

E o bullying constante e eterno que uma mulher transexual como eu sofre? Atenção que não estou a menosprezar a importância e gravidade de todos estes casos e de muitos outros de que não se sabe, mas convém deitar aqui umas achas para a fogueira, relembrando o infeliz caso de Gisberta Salce Júnior, mulher transexual tal como eu. E eu penso muitas vezes que no lugar dela poderia estar eu. E que o bullying que ela sofreu durante três longos dias e que culminou com a sua trágica morte poderia ter sido evitado. E que me pode acontecer o mesmo.

Para quem não se lembra, Gisberta foi violentamente agredida por um grupo de adolescentes, que além da porrada, a violaram, enfiaram-lhe paus pelo anús, tentaram estrangulá-la, tentaram atear fogo ao seu corpo pois pensaram que, após três dias de tortura, ela já estava morta, mas como não o estava, decidiram atirá-la para um poço cheio de água no prédio em construção onde ela "morava". Gisberta morreu afogada.

Gisberta poderia ter morrido de qualquer uma das doenças que minavam o seu enfraquecido corpo. Com o HIV veio a tuberculose, a hepatite B, a fraqueza geral, a incapacidade de reagir. E essa matilha de animais (peço desculpa por ofender todos os bichos, mas não me ocorre outra palavra) matou-a sem piedade que ela tantas vezes pediu ao longo dos três longos dias, e todos escaparam sem uma condenação, pois segundo o auto, "foi a água que matou Gisberta".

E é neste mundo que vivemos. Gisberta era uma mulher transexual. Talvez se não o fosse as coisas tivessem sido diferentes. E eu penso no bulying que sofro desde criança. E o futuro assusta-me. Tenho medo de sair sozinha à rua. Antigamente enfrentava com mais desfaçatez esse medo. Hoje em dia a minha consciência da verdadeira natureza humana face ao desconhecido faz-me temer pela minha integridade física.

Não tenho vergonha nenhuma nem pudor em afirmar que é um risco enorme ter-se o azar de nascer transexual numa sociedade como esta. Lembro-me de ter uns quatro, cinco anos, e de ir brincar para a rua com outras crianças da minha idade. Provavelmente por já ter um tipo de comportamento diferente dos outros meninos, fui selvaticamente espancada por todos eles, que eram uns cinco, e lembro-me nitidamente que um, em particular, me deitou as mãos ao pescoço, me fez cair de costas no chão, arrancou-me carne dos ombros e cara e mordeu-me com toda a força. Não sei como, consegui fugir, e em lágrimas abracei-me à minha mãe e irmã, que estavam em casa e me trataram dos ferimentos, enquanto gritavam pela janela com eles, que zombavam e mim e me chamavam nomes.

E cenas deste género foram-se repetindo ao longo da minha infância e adolescência. Fui constante e permanentemente vítima de bullying. Isso fez de mim uma pessoa marcada. Fiquei mais desconfiada, mais fria, mais insegura, mais medrosa. E isso transformou-me. Não o posso negar. Nunca me vou sentir como pertencendo a algum sítio ou local. Nunca vou sair para a rua com total segurança. Nunca me vou sentir eu com toda a força da palavra "eu".

"Elas não matam, mas moem", já lá diz o antigo ditado. E o que julgava ter ultrapassado ao longo dos anos deixou marcas. Muitas cicatrizes naquilo que sou. Mas não me vão pisar mais como o fizeram ao longo de quase toda a minha vida. Se cheguei aqui, vou-me esforçar por continuar. Mas não serei a mesma que fui. Não serei. Nunca mais.

Terça-feira, Maio 03, 2011

Lavar a alma, parte um




Estou prestes a fazer 40 anos. Há quem diga que um ciclo termina, outro começa, que é a idade da acalmia, da ternura, da sabedoria, etc, etc, etc.

No meu caso, acho que é realmente o culminar de uma fase, de mais um ciclo, e começar outro, recomeçando algumas coisas, mantendo outras, cimentando cada vez mais aquilo que sou, sem deixar de me manter aberta.

Sempre sonhei com o princípe encantado, como acredito que todas as mulheres sonharam um dia (as hetero, obviamente). Mas eu nunca deixei de acreditar que um dia, hoje, amanhã ou depois ele iria aparecer. Nunca. Mesmo agora, em que esse cenário se mostra cada vez mais distante, não consigo deixar de procurar num olhar, numa palavra de alguém, num indício de deus, vindo sei lá de onde, mesmo que eu não acredite num deus da forma mais óbvia.

Por isso, para mim, cada relacionamento que tive, cada homem que conheci, cada um que eu deixei que tocasse no meu corpo, foi nessa esperança vã de que, num deles, esse princípe tivesse incarnado.

Nope. A vida não funciona assim. As pessoas não funcionam assim, e definitivamente, os homens não funcionam assim. Acho que pelo menos isso aprendi. Aquilo que para nós mulheres, não é nunca apenas sexo, para eles é, ou pode ser. É-lhes inato espalharem a sementinha, relacionarem-se sexualmente com a quantidade maior de fêmeas, mesmo que estas não sejam o estereótipo tradicional da "fêmea", como é o meu caso.

Para mim, sempre senti o meu corpo como o meu santuário. Algo que só eu e apenas eu guardava, respeitava e defendia. Confesso que entreguei o meu corpo a pessoas que nunca mereceriam tal coisa. Arrependi-me de casos que tive. Chorei por causa disso. Tive raiva de mim. Senti-me suja. Agora vejo as coisas de outra forma. Vejo que tinha que passar por essa aprendizagem, por essa violação do meu santuário, para me sentir mais humana, para sentir que o que eu via, essa imagem do princípe em cada um deles, não existia, que eu fui apenas mais uma, apenas mais um caso, uma queca, algo sem importância.

Para mim, o sexo nunca foi algo natural no sentido em que a maioria das pessoas o refere. O sexo para mim sempre foi algo místico, algo quase sobrenatural, uma experiência única e próxima do divino. Era como eu o via. A realidade é bem menos romântica. O sexo é hoje em dia banal e está na moda, parece, andar a dar quecas com os amigos e tal. Não concebo tal coisa.

Amizade é amizade, e na amizade, por mais profunda e íntima que seja, não há lugar para sexo. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Eu não gosto, e tentei nunca misturar as coisas. No dia em que isso aconteceu, há uns tempos atrás, foi mau. Como seria de esperar a amizade acabou. Talvez porque nunca tenha havido realmente amizade, apesar de eu achar que sim. Pelos vistos estava enganada. Tanto nisso, como em muitas outras coisas, às quais eu chego à conclusão agora.

O princípe não existe. Sexo nunca é só sexo - para mim. Amizade é uma coisa, paixão outra e amor outra ainda. Porra, custou. Custou mas aprendi alguma coisa. Demorei quase 40 anos a chegar aqui, mas se me for em breve, irei com muita coisa na alma. Não toda boa, não toda má, mas uma alma lavada. Se ficar, irei continuar a ser sincera, franca, honesta e directa como sempre fui. Para o bem e para o mal. Para quem gosta e para quem não gosta. Eu sou assim, e não tenho vergonha nenhuma disso. Muito antes pelo contrário.

Muita coisa parece contraditória, e tudo é discutível, não é? Pois é. Eu sou apenas humana e tenho os meus sentimentos, pensamentos e reflexões. E os comentários aqui por baixo servem precisamente para isso. Até breve (ou não).

Sábado, Abril 09, 2011

Mais uma vez a ignorância


De vez em quando recebo uns emails interessantes, de pessoas provavelmente interessantes, mas que estragam tudo quando leio mais do que duas linhas.

O grave nesta estória é que estes homens (são poucas as mulheres que me escrevem), são tão ignorantes e estupidificados como esta sociedade em que vivemos.

Exemplos: "respeito a tua opção", "sabes, eu sou heterossexual", "pois, deve ser interessante ser travesty" ou "és MTF (Male to Female) durante o dia todo, ou só às vezes?". Bem, é que é com cada "pérola" que cada uma que guardo na memória é melhor do que as anteriores.

Vamos então um pouco ao bê-á-bá da minha situação, que é de mulher Transexual. Ser-se Transexual não é nem nunca foi uma "opção": nós nascemos assim, e mais tarde ou mais cedo assumimos quem somos, não acordamos um dia e decidimos "Vou ser Transexual!". É uma questão da nossa identidade de género, que é oposta ao corpo com que nascemos.

Depois vem a eterna confusão e complicação em torno das preferências sexuais e da Transexualidade. Ser-se heterossexual, bissexual ou homossexual são preferências sexuais. Ser-se Transexual é ter-se uma essência oposta ao corpo biológico com que nascemos - Eu nasci com um corpo biologicamente masculino, mas a minha identidade de género é feminina - daí o MTF (Male to Female). Logo, sou uma mulher Transexual heterossexual porque me sinto sexualmente atraída pelo género oposto: leia-se homens. Entendido? (Não acredito muito, mas a malta vai-se esforçando).

Agora vem a estória do "travesty". Meus caros, "travesty" não existe. O que existe é "travesti" sem Y no final, que nada tem a ver com Transexualidade, mas que estão constantemente a confundir (mais uma vez). Que uma esmagadora maioria das brasileiras transgénero que vivem em Portugal e mesmo no Brasil se identifiquem como tal é lá com elas, mas isso nem aqui nem na China faz sentido. E isto liga-se à teoria do ser-se "Male to Female o dia todo ou só às vezes". É que a confusão é tão, mas tão grande, que já quase ninguém se entende.

Vamos por partes. Brasil é Brasil. Portugal é Portugal. Lá elas definem-se de maneiras que nem lembram ao diabo, provavelmente por causa da falta de informação (que não se justifica em pleno século XXI) ou por ignorância simples. Já falei com pessoas que se identificavam como "crossdresser virando travesti", seja lá o que isso for. Ou seja, na ânsia de tanto rotular as coisas, rotula-se ou tudo por igual, ou especifia-se até ao pormenor, o que nem uma coisa nem outra fazem algum sentido.

Por causa disto, as pessoas que vivem do travestismo como profissão (encarnam mulheres num palco, não implicando isto que se sintam mulheres, o que raramente se sentem) acabaram por se denominar transformistas, para que não existam confusões. Entendo perfeitamente. Mas, na realidade aquilo a que assistimos são shows de travesti, uma arte fantástica, e que nada tem a ver com aquelas pessoas que se denominam "travestis".

No Brasil, travestis são as mulheres transgénero no geral. No particular, apenas as que se submetem a uma cirurgia de redesignação de sexo (CRS) são Transexuais, mesmo que muitas das chamadas "travestis" também o sejam. Por cá a moda vai pegando de tal forma que qualquer mulher transgénero e/ou Transexual já é tratada como "travesti".

E ter-se ou não submetido a uma CRS não faz de uma mulher Transexual. Não é a cirurgia que torna a pessoa em algo. Essa pessoa é e sempre foi Transexual. E não é por se operar ou não que vai continuar ou deixar de o ser. A CRS é um meio para atingir um fim, não um fim em si. Ninguém se torna mais ou menos mulher apenas porque se operou. E não é por não ser operada, como é o meu caso, que me sinto ou considero menos mulher. Muito menos admito que me tratem como "travesti" ou de uma forma inferior às outras mulheres.

Há anos que batalho numa maior informação da população em geral e das pessoas transgénero e Transexuais em particular. Mas parece que quanto mais se avança no tempo, mais as mentalidades recuam. Por isso me vi forçada, mais uma vez, a "bater no ceguinho" e a esplanar algumas das diferenças entre as coisas.

Acho que se as pessoas se preocupassem mais com a essência e beleza interior própria e dos outros, todos nos sentiríamos e relacionaríamos muito melhor. Pensem nisto e até breve.

Quarta-feira, Fevereiro 02, 2011

A vida flui como um rio nos meus olhos

Acho piada a como a vida nos vai pregando partidas. Há pessoas que entram e saem, sempre, ao longo dela, e nós, muitas vezes, ficamos a olhar quase que sem uma reacção do tipo "espera", "não vás", "que aconteceu?".

Curioso é ver como tudo tem uma fluidez alcalina, passamos pela vida dos outros sempre com marcas de ambas as partes, mas muitas vezes, só temos consciência disso anos e anos depois. Encolhemos os ombros e pensamos "bem, cada um tem a sua vida" e/ou "as circunstâncias da vida separaram-nos". Pode parecer lógico mas não é, e de racional não tem nada.

Ora, se eu sou amiga de alguém que também é meu amigo, porque é que por qualquer circunstância da vida, como referi o lugar-comum, essa pessoa desaparece de vez, sem deixar rasto? O mesmo se aplica aos namorados, aos irmãos e até aos pais. Parece que seguimos em frente (ou para outro lado qualquer) quase sem noção da importância de emoções, sentimentos e tantas trocas que houve com tanta gente.

Não me considero saudosista, mas tenho pena de ter ficado parada a olhar quando algumas pessoas sairam da minha vida. Como não acredito em coincidências sei que essas pessoas passaram pela minha vida porque tinham que passar, mas não sei é o porquê de terem saído. Será que sou mais uma que anda à procura do "meaning of life" seja lá o que isso for? Claro que sou. Sou-o como todos nós somos. Toda a gente procura o sentido da vida de uma forma ou de outra, num olhar ou num odor, numa luz ou numa sombra.

O meu sentido da vida não sei qual é. Ninguém sabe. Por isso nos agarramos a tanta coisa e perdemos outra tanta, como referi atrás. Sei apenas que nasci menina, sempre me senti assim, desde que me lembro, e que é estranho que os outros nem sempre me tenham visto assim. De menina passei a adolescente, de adolescente a mulher, sempre a sentir-me estranha. Mas houve sempre alguém que esteve lá para me indicar algum caminho. Fui-o trilhando e agora tenho quase 40 anos. Mas estou tão perdida como quando era uma menina de 5, 6 anos.

Sei que isto não se passa por acaso. Nada é fruto do acaso. Até aquilo que mais se banaliza hoje em dia, como o sexo, não é fruto do acaso. Porquê com este e não com aquele? Porquê amanhã e não hoje? Porquê incluído numa relação e não espontâneo? Mas o sexo nunca é só sexo. Há sempre mais qualquer coisa, como em tudo na vida. Há troca, há partilha, há intimidade da mais pura, mesmo quando nos sentimos horríveis e sujas no dia a seguir. Olha, se calhar foi com este porque tinha que ser! Com isto quero afirmar que apesar de não acreditar em coincidências e que tudo acontece por uma razão, acredito igualmente no nosso livre-arbítrio. Nós podemos sempre, mas sempre escolher ir por aí ou não. Se tivéssemos ido pelo outro lado, provavelmente o resultado seria diferente, mas será que isso realmente importa?

Será que o que realmente importa na vida não são precisamente as experiências que retiramos das nossas escolhas? As impressões indeléveis de quem passou e passa por nós? Importa é não nos esquecermos, sem ser saudosistas ou masoquistas, ou lamechas, que tudo isso foi importante, para o bom e para o mau. As coisas mudam, as pessoas revelam-se. Esta lição fui-a tirando ao longo da minha vida, principalmente desde que me assumi como mulher transexual.
Quando temos consciência de nós e temos a noção do que se está a passar, os outros ressentem-se. E revelam-se. Exigem algo que nós não queremos dar, como continuarmos com a fantochada de sermos algo que nunca fomos. E isso cansa. E eu cansei-me. E cansei-me dessas pessoas. E segui o meu rumo. E só me arrependo de não ter sido mais cedo, bem mais cedo. Guardei e guardo tudo o que senti de bom e de mau, cheiros intensos, sabores amargos. E guardo tudo isso porque, em última instância, tudo isso faz parte de mim. E como diria a outra "I am what I am".

Quarta-feira, Janeiro 12, 2011

Ano novo, blog renovado

Costuma dizer-se ano novo, vida nova. No meu caso, como provavelmente no caso de muito mais pessoas, nada neste ano novo me parece começar bem. Não sei se este será o último post que escrevo aqui, pois o Lara's dreaming já não faz sentido para mim, pelo menos nestes moldes.

Depois de um 2010 em que me parecia que muita coisa estava a evoluir positivamente, eis que me apercebo que nesta vida nada é linear, nem simples, mas cheio de curvas tortuosas. E tanta, tanta coisa nesta vida não depende, nem mesmo quando queremos, de nós.

Primeiro, devo aqui destacar algo do qual ainda não tinha escrito, a lei de identidade de género, que após dura luta foi mais ou menos para a frente. Mais ou menos, porque depois de muita confusão e entraves no projecto-lei, o Presidente da República decidiu vetá-la sem uma justificação minimamente coerente. Obviamente que aqueles que desde o início eram apologistas de uma lei em que as pessoas transexuais só poderiam alterar nome e género após a cirurgia de redesignação de sexo, e que inclui especificamente os médicos que nos tratam e operam, bem como os partidos de direita, devem ter jubilado com esta decisão do líder da nação, na esperança de que ainda se consiga dar a volta e colocar lá essa obrigatoriedade. Triste, muito triste, e que só me envergonha ainda mais de ser uma cidadã deste país pequenino de tamanho e de mentes.

Curiosamente, e depois de uma dura campanha do lobby gay aquando do casamento entre pessoas do mesmo sexo, em que até casamentos a fingir e manifestações houve em frente da assembleia da república, agora o silêncio foi quase total. Tirando uma declaração aqui e outra ali, pouco ou nada foi feito para levar esta lei a bom termo. Uma lei pela qual eu também lutei e durante muito tempo, mas da estrutura da qual fui afastada, ainda hoje gostaria de saber porquê. Pelos vistos fui rotulada de ex-activista por pessoas que têm uma influência que nunca deviam ter e um poder que nunca lhes deveria ter sido dado. Também, pelos vistos, ter batalhado estes anos todos por uma sociedade mais digna, onde as pessoas transexuais tivessem direitos como todos os outros, caiu em saco roto. Vejo agora que eu ter dado a cara, a voz e a escrita pelas pessoas que sentem como eu não serviu absolutamente de nada. Serviu para eu ser posta de lado, sem uma justificação, sem critérios, sem piedade. Muito bem, meus caros, dou-me por vencida: nunca mais darei a cara, a voz ou a escrita por interesses que supostamente também seriam os meus, mas que pelos vistos não o são. Posso ser muita coisa, mas hipócrita não sou, e o vosso cinismo só me entristeceu porque ainda acreditava que esta era uma luta não de uma pessoa, mas de todas. Sendo assim, termino aqui e agora, oficialmente, o meu papel de activista pela causa transexual. Espero que regozijem após lerem estas linhas.

O Lara's dreaming terminará, ou não, por aqui, isso só o futuro o dirá, mas deixará de ser um blog de uma activista transexual, para passar a ser um blog de uma simples mulher que teve o infortúnio de nascer transexual. Já aqui escrevi sobre o estigma, e ele mantém-se mais vivo do que nunca. Este passará a ser um local mais pessoal e intimista ainda, com lugar a reflexões e pensamentos sobre a importância exacerbada que se dá a um corpo, quando é dentro dele, no nosso coração e alma/mente, que tudo o que realmente importa se passa.

Obrigada a todos e todas que leram, lêem ou vão lendo o que aqui escrevo. Podem sempre comentar, enviar textos vossos se assim o desejarem, que eu vou mesmo fazer os possíveis para que não me tirem o meu último direito: o de me exprimir e expressar livremente.

Até breve,

Lara Crespo

Quarta-feira, Novembro 17, 2010

O estigma e a minha auto-estigmatização

Depois de algumas "décadas" sem postar aqui nada, eis-me de volta com a brisa do Outono. Aviso já que, como sou uma mocinha nada politicamente correcta, vou continuar a chamar os bois pelos nomes, e também vou continuar a escrever português como sempre escrevi, não adaptada ao chamado "acordo ortográfico".

Agora vamos a um assunto polémico que muito me tem feito pensar ultimamente, e sobre o qual já postei aqui algumas coisas, apesar de revestidas de outros factores, ou com outros nomes: afinal, porque somos nós estigmatizadas, porque o somos mesmo, quem nos estigmatiza, e porque, muitas vezes, nos auto-estigmatizamos.

O estigma é algo que nos marca desde a nossa nascença. Pelo menos foi assim no meu caso. Tal como nasci com um sinal particular num dedinho do pé, o tal do estigma veio junto. Desde criança pequenina que tenho memórias de ser discriminada (sim, porque o estigma leva à discriminação) tanto pela minha família próxima, como pela outra família, como pelos miúdos que brincavam na minha rua, como pelas pessoas que me viam na rua com a minha mãe.

Havia algo de inatamente feminino em mim que transparecia de tal maneira que eu nem sequer me apercebia. Mas os outros sim. Quem não sabia, partia do princípio que eu era uma menina (e era, pois é meus amigos), quem sabia que eu tinha nascido com genitália masculina gozava-me, humilhava-me, batia-me, etc, num ciclo sem fim. E nestas pessoas incluem-se as da família. Obviamente, quem sempre me protegeu mais foi a minha mãe, mas foi também ela que nunca me deixou libertar do estigma. Não me deixou esquecer. Mas, se assim fosse, talvez eu não estivesse agora aqui a escrever sobre isso.

Lembro-me de um episódio curioso, passado no liceu que frequentei até ao 11º ano, o D. Pedro V, em Lisboa. Eu teria uns 14, 15 anos e era vítima constante e continuada do que hoje em dia se chama de "bullying", mas que sempre existiu, como todos sabemos, quer sobre vítimas mais "diferentes", quer sobre os mais fracos e por aí fora. Eu estava num furo entre aulas e descansava ao sol de uma amena Primavera, sentada num banco sossegadamente. O principal grupo de rufias que me perseguia constantemente aproximou-se sem que eu desse por isso. Eu era uma, eles eram cinco. Nem sei bem como, arrastaram-me para uma zona escondida por arvoredo (dentro da escola), e o "líder", um puto adolescente loiro e gordo, quase da minha altura (sim, eu já era bem alta e espigadota nessa altura) decidiu que me iam despir para ver que sexo é que eu tinha entre as pernas.

Em pânico e sem poder pedir ajuda, fui tentando afastar as mãos deles do meu cinto, das minhas calças, do meu corpo. Quatro deles, incluindo o gordo obviamente, discutiam o que me faziam depois de me despirem. Um, já com barba e mais tímido, ia pedindo que se afastassem e fugissem, pois podia aparecer alguém. Conseguiram tirar-me o cinto. Entrei em pânico enquanto as calças me escorregavam ao longo das ancas. O gordo não parava de me tocar, enquanto os outros me agarravam. Eu já via o final que aquilo ia ter. Era óbvio. Mas não. Por algum acaso dos deuses, o barbudo conseguiu convencê-los, assim que se ouviu o toque para o intervalo. Poderia, realmente, aparecer alguém. E eu fui, dessa vez, salva pelo gongo.

Porque escrevo sobre isto agora? Porque acho importante que se compreenda que situações como esta servem para que nos fechemos ainda mais em nós, que nos auto-estigmatizemos, que nos sintamos mal, ao contrário do que, supostamente, deveria acontecer. Sim, porque quem deveria ter sido punido por isto seriam eles, não eu. Mas em última análise, fui eu que me puni sempre com as desventuras que me foram acontecendo ao longo da vida. Fui eu que me auto-estigmatizei. E sim, não me considero uma mulher igual às outras. Sou uma mulher diferente. Sou uma mulher marcada pelo estigma de ter nascido transexual e de ter que viver e sobreviver com isso, num mundo que não está preparado para a diferença em aspecto nenhum.

Vejo os olhares na rua, agora que já vou a caminho dos 40 anos. Vejo as teorias ridículas e estapafúrdias às quais atribuem a transexualidade. Vejo a atitude dos tlovers em relação a mim. E tudo isto me estigmatiza ainda mais.

Circulo muito na net. Como toda a gente que lê este blog sabe, conheci muitos homens pela net. Com uns tomei café, com um namorei, com outros tive flirts passageiros. Mas é impressionante a quantidade de preconceito e pré-conceito que existe na cabeça destes homens e dos outros (aqueles que só vêem "os bonecos" e não se dão ao trabalho de ler o meu perfil). Para os tlovers, tudo bem, "fixe que és trans". Na realidade, quando eles se referem a mim como sendo trans, não é no sentido de mulher transexual, mas sim no sentido de travesti (homem que se veste de mulher), mas nem eles, em geral, têm consciência disto. Para os que não lêem, ou não me conhecem de todo, é incrível como o tom de conversação muda quando eu lhes revelo que sou transexual. Uma conversa agradável de três horas pode tornar-se numa pornochanchada de três minutos. E a preocupação é sempre uma: "mas és operada?", ou então "vais operar-te, não vais?"

O mais ridículo disto tudo é que eles nem sequer sabem se sou operada, ou o que isso significa: (meaning: fazer a Cirurgia de Redesignação de Sexo - CRS ou em inglês - SRS). Não, não sou operada. Sou uma mulher transexual não-op como os americanos adoram rotular. Ou uma mulher com mamas e genitália masculina, como escrevem e dizem outros. E depois? Para esses que não leram o meu perfil, a partir do momento em que eu refiro a minha transexualidade, passo a ser uma "coisa esquisita", independentemente de ser operada ou não. Se eu dissesse que sim, mudaria alguma coisa? Decerto que não, e já tive provas disso, comigo e com outras mulheres transexuais que se operaram e que, mesmo assim, continuam e continuarão a ser estigmatizadas.

Porque o fulcro da questão nestas mentes transfóbicas não é a vagina em vez do pénis. Não! É o facto, de como eles dizem "já teres sido homem". Mas, muito sinceramente, o que é isto? Já fui homem??? Quando???
Ou o clássico "então és homem". Sou "homem" porquê? Porque o meu corpo possui características genitais masculinas? Então quer dizer que sou sempre presa por ter cão e presa por não ter. O estigma está lá. Esta estória ridícula do foste homem, ou és homem, ou coisa que o valha não faz qualquer sentido veja-se porque prisma se vir. Só faz sentido em mentes transfóbicas, que, infelizmente, são a maioria esmagadora, e que estão entre a nossa própria família.

O meu estigma está cá e estará sempre. Mas eu também me auto-estigmatizo. Agora, isto não implica que aquilo que eu sou se reduza ao que tenho entre as pernas. Aliás, não admito que ninguém me reduza a isso. Sou uma mulher, sei-o e sempre o soube. Sinto-o e sempre o senti. A minha alma é feminina, não masculina. Sou sensível, inteligente, teimosa e com mau-feitio e muitas coisas mais. Mas nunca, nunca, me reduzam a um ridículo esterótipo do que uma mulher deve ou não ser. Como eu afirmei numa entrevista que dei ao Jornal i, "o sexo está na nossa cabeça, não no meio das pernas". Afirmei-o e hei-de afirmá-lo sempre. Faço apenas um reparo, com um acrescento: o nosso sexo e o nosso género. Nestes moldes sou mulher. E quero ver provarem-me o contrário.

Quinta-feira, Julho 22, 2010

FRANÇA: Transexual estrela de Givenchy fotografada nua pela Vogue


Givenchy, a famosa marca de moda francesa, avançou para a campanha Outono/Inverno deste ano com uma modelo transexual.

Lea T., de origem brasileira, é assistente pessoal e modelo de provas de Riccardo Tisci, estilista italiano da marca francesa, seu amigo que assim decidiu lançá-la como modelo da mais recente colecção feminina da Givenchy, para reforçar a dicotomia masculino/feminino defendida pelo estilista.

Depois do lançamento da campanha, Lea foi a sensação como modelo das revistas de moda um pouco por todo o mundo.

Agora, chegou à famosa revista de moda Vogue, edição francesa, posando nua, tapando apenas a genitália. Segundo a própria, aceitou em nome das suas amigas transexuais ser a porta-estandarte da causa transexual e pela amizade que a une a Tisci.

Graças à campanha da Givenchy, tornou-se uma das modelos mais requisitadas da agência italiana Women, que a representa, tendo participado como manequim no último desfile de alta-costura da Givenchy.

Para visualização total, clique na foto.

Notícia PortugalGay.pt

Quinta-feira, Julho 08, 2010

Casamento gay: "Amo-o desde o 1º dia" - Correio da Manhã Online


"Amo-o desde o primeiro dia"

Manuel Correia e Fernando Fonseca casaram-se ontem na 7.ª Conservatória do Registo Civil de Lisboa. "Em nome da lei declaro-vos casados", disse a conservadora, a que se seguiu o tradicional beijo. "Finalmente vou ter Fonseca no meu nome. Amo-o desde o primeiro dia", disse Manuel, enquanto Fernando não escondia a ansiedade e não conseguia acertar no nome completo do marido como pretendia a conservadora: "Estava muito nervoso".
Nenhum familar compareceu à cerimónia. "A minha família não aceita e a dele também não", explicou Manuel Correia, chefe de cozinha que também actua como travesti. Para a madrinha Carmen Garcia, foi um momento de grande emoção: "Eles merecem que eu dê a cara por eles".

Segunda-feira, Maio 24, 2010

RIP Beto

Beto faleceu ontem à noite vítima de AVC. Tinha 43 anos. Sempre fui uma fã calma da sua voz linda e profunda, do seu ar cândido e doce. Quando tive hoje conhecimento da sua morte, foi um golpe para mim. Por isso aqui ficam as minhas condolências à sua família e amigos próximos, e uma pequena homenagem com um clip de "Cavaleiro Andante" em que canta em dueto com Rita Guerra.
Lembrar-te-ei sempre, querido Beto. Descansa em paz.

Terça-feira, Março 23, 2010

Goodbye...

I'm just waiting to die...

Quarta-feira, Março 03, 2010

Cartaz ILGA-Europe: STOP Pathologisation of Transgender People!

Quinta-feira, Fevereiro 25, 2010

A minha primeira participação num clip

Graças ao meu querido amigo Diogo, eis que fiz a minha primeira participação num clip.
Aqui vos deixo também a ficha técnica.

*Rockin' Guns At Tavares*



- Edited by Isabel Fazenda

- Produced by Diogo Andrade and Teresa Alho

- Introducing Dark Doll Gothic Store and Designer Filipa Malho

- Make-Up, Hair and Art Direction by Diogo Andrade

- Música de Jlvsimões

- Actores: Lara Crespo, Luis Simões, Catarina Inácio e Veronika

Quinta-feira, Fevereiro 04, 2010

À procura...


Há já muito tempo que não vinha aqui postar nada de pessoal. Como podem ter visto, apenas vim publicar umas notícias que achei relevantes e algumas das últimas fotos.

2010 não começou da melhor forma, pois 2009 também não foi um bom ano. Gostava de ser optimista, mas não o sou. Sempre fui pessimista e negativa. Acho que faz parte de mim. É inerente à minha pele. Mas vou sobrevivendo como posso, apesar de desejar ou já não estar cá, ou de nunca ter nascido.

Continuo no meu processo de cirurgias. Parece algo inacabável, também por culpa minha que tenho adiado cirurgias, pois não me sinto preparada para passar por mais anestesias, mais pós-operatórios, mais dores. Mas, apesar disto, sei que tenho que ir em frente. Não me resta outra hipótese.

A minha situação financeira está pior do que nunca, e tenho posto todas as hipóteses, inclusive de sair de Portugal. A ver vamos o que se vai passar, mas não posso esperar muito mais. Estou cansada de tanto procurar trabalho e só levar com as contrárias. Se continuar assim, nada mais me resta do que me ir embora.

Vim apenas dar um "alô" a quem costuma passar pelo meu cantinho e gosta de ler o que aqui ponho. Ponho sempre algo de muito meu e lamento que desta vez não seja positivo.

Até breve.

Domingo, Janeiro 31, 2010

CHINA: Top model admite transexualidade - PortugalGay.PT


Alicia Liu (foto acima), top model originária de Taiwan, admitiu ser transexual.

A modelo, de 24 anos, afirmou ter-se submetido a uma cirurgia de redesignação de sexo (CRS) aos 18 anos.

"O meu ex-namorado pagou-a" disse Liu numa entrevista a um magazine de Taiwan.

Liu ficou famosa pelas suas aparições num programa de televisão cómico.

Liu foi exposta recentemente por um colega da escola que revelou o seu "segredo" na internet, que adicionou uma foto da modelo do álbum de graduação, no qual constava Liu na categoria masculina.

Depois disto, Liu convocou uma conferência de imprensa para afirmar a sua felicidade com o seu corrente nome e identidade. Nessa altura não negou nem admitiu o rumor.

Uma semana depois da conferência de imprensa, admitiu que era transexual, segundo o China Times.


Transfofa para PortugalGay.pt - Notícias

Sexta-feira, Janeiro 29, 2010

Uma cadeia só para pessoas transgénero - Jornal Público

Por Ana Cristina Pereira

Há quem aplauda o projecto italiano - a pensar nos perigos que enfrenta uma transexual numa cadeia de homens. E quem o repudie

Espinoza tem formas arredondas, cabelos longos, seios fartos e pénis. Uma vez por semana, quem com ela dividia a cela forçava-a a andar com os seios à mostra. Nem só os companheiros de reclusão a sujeitavam a práticas humilhantes. Os guardas prisionais não a deixavam usar soutien na hora de sair da cela para mudar de uniforme - obrigavam-na a sair apenas com uma toalha enrolada na cintura, como faziam com os homens. A algazarra num instante se instalava. "Ei, vaca!", gritava um. "Olha este gajo tem tetas!", gritava outro. E riam-se. Riam-se dela.

Teve consequência a história da nicaraguense que fugiu para os Estados Unidos para adequar o corpo à mente e foi apanhada pelos serviços de imigração sem autorização de residência e posta numa prisão a aguardar o afastamento do território nacional. Espinoza e outras transgénero fizeram queixa ao conselho de supervisores daquela cadeia do condado de Sacramento, no estado da Califórnia. Dali haveria de resultar processos legais de segregação.

A activista portuguesa Eduarda Santos (autora do blogue http://www.transfofa.blogspot.com/) já leu inúmeros relatos de "discriminação e assédio sexual" como este. E é a pensar neles que vê com bons olhos a iniciativa de Itália: o país inaugurará em Março, no município de Empoli, na Toscana, uma pequena prisão exclusiva para pessoas transgénero.

Por (quase) todo o mundo o problema coloca-se de forma mais (ou menos) assumida. A prisão está pensada para homens e para mulheres e há pessoas que não encaixam nesse sistema binário, resume Sérgio Vitorino, da Panteras Rosa - Frente de Combate à LesBiGayTransfobia.

Aparentemente baralhada, a imprensa argentina, por exemplo, noticiou em tempos a história de uma suposta mulher que "fingia" ser um homem: "A peruana insiste em defender sua identidade como homem e reivindica a sua permanência numa prisão masculina."

Há quem tenha a identidade de um género e a documentação de outro - uma cabeça de rapariga num corpo de rapaz ou uma cabeça de rapaz num corpo de rapariga. A pessoa pode iniciar um processo de mudança de sexo e, nesse caso, percorrer um longo caminho - anos de consultas de psiquiatria, anos de tratamento hormonal, anos de intervenções cirúrgicas.

Pode até ser mais complexo do que isso, lembra a activista portuguesa Jó Bernardo. Nem todos os transgénero ambicionam submeter-se à cirurgia de reatribuição de sexo. Alguns não querem ou não podem - por saúde, por dinheiro ou por mera forma de estar na vida ou no mundo. E há quem nem sequer esteja em trânsito. O estudo Os Cinco Sexos, publicado em 1993 na revista The Sciences por Anne Fausto-Sterling, docente de Biologia e Estudos de Género na Universidade de Brown, em Rhode Island, nos Estados Unidos, acrescenta três géneros aos dois clássicos masculino e feminino: o pseudo-hermafroditismo masculino, o pseudo-hermafroditismo feminino e o verdadeiro hermafroditismo.

A activista portuguesa Lara Crespo alegrou-se com a notícia da cadeia exclusiva para transgénero: "As pessoas estão mais protegidas e podem ser acompanhadas. Se estiverem a fazer tratamento hormonal ou psiquiátrico, spodem continuar. E até o podem iniciar lá."

Biblioteca e horto

Maria Pia Giuffrida, responsável pela administração penitenciária na Toscana, assegurou à AFP que as obras estão quase concluídas. O antigo estabelecimento prisional feminino - com lugar para 30 pessoas - terá uma biblioteca, um horto, uma zona desportiva e um centro de estudos.

O projecto recebeu o aval da principal força da oposição, o Partido Democrata, e de diversos grupos de pessoas transgénero em Itália. "É uma boa notícia e é fruto de um trabalho conjunto entre os administradores e as associações como a Trans Genere, a Ireos e o Movimento pela Identidade de Género (MIT)", explicou Aurélio Mancuso, presidente da Arcigay.

Jó Bernardo não encontra virtudes no projecto. Ouve falar numa cadeia para transgénero e pensa na pretensão, há muito discutida, de criar uma cadeia para seropositivos em Cuba. Sérgio Vitorino, por seu lado, lembra o debate sobre a separação ou integração escolar das crianças com necessidades especiais.

A fundadora da A-Trans, Jó Bernardo, encontra na iniciativa italiana um "problema de socialização". E critica: parece ser "mais fácil criar uma gaiola para meter os trangénero do que garantir a sua segurança e a sua dignidade". O ideal, defende, seria criar uma ala especial dentro da cadeia.

Em Portugal, as transexuais M/F (masculino para feminino) ficam em cadeias de homens. Antónia (nome fictício) passou seis meses em prisão preventiva - no Montijo. Colocaram-na numa cela individual. Tomava banho depois de todos os outros reclusos e sob escolta de um guarda. Nunca se sentiu em risco de ser assediada ou mesmo violada.

Certo é que colocar estas pessoas numa cadeia afecta ao género com o qual se identificam não cria apenas um imbróglio jurídico. Pelo menos essa é a ideia que passa Regina Satariano, presidente do MIT, em declarações à AFP: "As mulheres presas não gostam de conviver com transexuais." E, no fim, as transexuais acabam por ficar isoladas na mesma.

Não foi o que pensou o Supremo Tribunal britânico quando, em Setembro último, decidiu transferir uma transexual condenada a perpétua para uma prisão feminina. Considerou que mantê-la detida entre homens era uma violação do artigo 8 da Convenção Europeia dos Direitos do Homem. A. tinha 27 anos. Já iniciara tratamentos hormonais, já se submetera a depilação a lazer e a consultas de psiquiatria. Ela queria fazer a operação de mudança de sexo e para isso tinha de viver algum tempo como mulher.

Público.PT