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Sou uma mulher transexual de Lisboa, Portugal, onde nasci e cresci. Neste espaço poderá encontrar pensamentos, reflexões e comentários inerentes à minha vida como mulher trans. Seja benvind@ ao meu cantinho.

quarta-feira, dezembro 02, 2015

Achas que me conheces?

É curioso ver que, aos 44 anos, ainda sou tratada como "algo" de adquirido. Pessoas que, supostamente, me deviam conhecer não sabem sequer quem eu sou na realidade, e outras, como nas redes sociais, partem do princípio de que como leram entrevistas minhas ou me viram na televisão, ou viram algum depoimento meu em vídeo, eu sou "da família".



O grande problema, neste tipo de relações "reais", ou seja, de pessoas que te conhecem há anos, não interessa se muitos se poucos, é que acham que tu és assim ou assado porque lhes deste confiança demais, logo deste-lhes um conhecimento de ti que essas pessoas não só não conseguiram apreender, como desdenham dele. Não é importante o que poderiam conhecer de ti, mas os juízos de valor que elas fazem de ti. De mim, neste caso, que dou demasiada confiança e me abro demais com as pessoas e no fim, quem fica na merda sou eu, em todos os aspectos.

No fundo, essas pessoas, desde família a supostos amigos, não me conhecem nem nunca conheceram. Não que eu não lhes tenha dado as ferramentas para isso, mas porque essas pessoas ou são estúpidas, ou fazem-se. Lá porque eu lhes dei a mão, não implica que me fiquem com o braço todo, sendo que nunca é para coisas positivas. Sei que dizem e escrevem muita coisa acerca de mim e entre eles, mas nem dez por cento do que põem lá é verdade ou corresponde à pessoa que eu sou.

Isto aplica-se igualmente a quem é meu amigo nas redes sociais e não me conhece pessoalmente, partindo apenas de entrevistas minhas para me julgar. Tenho muitos defeitos, mas nunca faço juízos precipitados, muito menos juízos de valor. Essas pessoas acham que me conhecem, que eu sou assim e tal, e quando lêem o que escrevo ou o que partilho se calhar não é bem o que elas estariam à espera de mim, logo eu devo estar supostamente a enganá-las, ou enganei-as desde o início. Nada disso, elas é que tiraram conclusões precipitadas sobre mim, nunca fizeram um esforço para me conhecer, e partem de testemunhos públicos meus para me julgarem. Mas quem é que esta gente pensa que é? 

Não admito que me julguem seja pelo que for. Se, hoje em dia, eu estou mais amarga, mais fria, mais distante ou algo do género e por aí fora, muito a toda esta gente se deve. Desde a suposta "família" aos "amigos" que nunca me conheceram. Sempre mostrei quem era, fiz a minha transição e sou a mesma pessoa! Evolui e mudei. Se foi para melhor ou para pior, isso já é problema meu, não de mais ninguém. Mas não passei a tratar ninguém de maneira diferente, o que não se pode dizer dos outros.

No meio disto tudo cheguei a mais uma brilhante conclusão e verdade da vida. Quanto menos deres a conhecer de ti, melhor vives e mais em paz contigo própria estás. Se te entregas às relações com os outros, só tu sais sempre a perder, sem excepção. És humilhada, pisada e maltratada e nem sabes de onde elas te vêm. Por isso escrevo cada vez menos aqui e também no facebook. Apesar do meu grupo de amigos virtuais ser "chocantemente" pequeno comparado com o que vejo por lá, basicamente todas as pessoas importantes para mim lá estão. Ah, e nunca "desamigo" alguém sem razão. Tal como na vida real, não deixo de falar ou de me dar com alguém sem uma razão plausível para mim.

Meus e minhas car@s, eu comecei a dar a cara em 2003. Tudo o que disse em entrevistas foi verdadeiro e honesto e até falei mais do que devia, e numa grande quantidade de vezes não foi o que eu disse que foi publicado. Logo, não pensem que me conhecem só porque leram uma entrevista, ou porque me conheceram naquele dia lá no bar não-sei-quantos e trocámos dois dedos de conversa. Eu sou, tal como todos vós, muito mais do que isso, e não permito que qualquer um/a entre na minha vida.

Respeitem-me, conheçam-me e assim, sim. De outra forma, será sempre um rotundo não.

---> Foto: Eu, no espaço Mob, dia 20 de Novembro de 2015, no Transgender Day of Remembrance (TDOR) num evento organizado pelo colectivo Lóbula.