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Sou uma mulher transexual de Lisboa, Portugal, onde nasci e cresci. Neste espaço poderá encontrar pensamentos, reflexões e comentários inerentes à minha vida como mulher trans. Seja benvind@ ao meu cantinho.

sexta-feira, dezembro 20, 2013

Ser ou não ser: nunca deveria ser uma questão

Quando as pessoas pensam em transexualidade/transgenderismo acabam sempre por pré-conceber uma imagem que, infelizmente, corresponde a uma grande parte das pessoas trans, mas que não pode nem deve ser generalizada. Convém também referir aqui que as pessoas só concebem mulheres trans (masculino-feminino) e só raramente sequer têm a noção que existem homens trans (feminino- masculino).

Para o comum do cidadão, nós, mulheres trans, somos todas prostitutas/trabalhadoras sexuais, ninfomaníacas, usamos todas mini-saias, saltos agulha, decotes até ao umbigo e somos todas plásticas: silicone aqui, silicone ali, numa exacerbação dos traços supostamente femininos.

Quer queiramos, quer não, o pré-conceito das pessoas cai aqui. Não somos homens nem mulheres, somos algo no meio, independentemente de sermos “operadas” ou não. Se escrevo muito sobre esta temática, tem não só a ver com a desmistificação do que é uma mulher trans (que é o meu caso), como para clarificar que nada é fácil na vida de ninguém, sendo que para as pessoas trans essas dificuldades elevam-se ao dobro, pelo menos.
 

Muitas vezes tenho escrito sobre o estigma que temos. Somos uma minoria dentro das minorias, o que leva as pessoas a olharem para nós com estranheza no mínimo, e com ódio na maioria das vezes, o que leva a tantas mortes de mulheres trans em todo o mundo todos os dias.

De objectos sexuais, linha bonecas insufláveis, a aberrações, somos vistas sempre como uma coisa esquisita. E, se por qualquer motivo, damos mais nas vistas, então a nossa vida torna-se infernal. Falo por mim, que sou muito alta, comparativamente com a esmagadora maioria das mulheres portuguesas. Com quase 1,90 m, dou sempre nas vistas, quer queira, quer não. E depois começam os olhares mais observadores, que notam a minha maçã-de-adão saída, a marca da barba numa pele demasiado branca, uma forma de vestir que não é aquilo que socialmente é correcto uma senhora vestir.

Mas esta discriminação e, inclusive, ameaças à minha integridade física, não vêm de hoje, de agora. O pior foi a fase da adolescência, em que eu não correspondia em nada ao que era esperado de mim. Não me encaixava nos padrões masculinos e femininos, que socialmente se considera serem os esperados. Era muito alta, muito magra, vestia-me de forma completamente andrógena e aquilo que provavelmente transparecia era a imagem de um gay efeminado.

Pois, e este facto levou-me a ser altamente discriminada e vítima de “bullying” (palavra que está muito na moda agora e que falam como se este fenómeno tivesse surgido nos nossos dias, mas que sempre existiu) por parte de colegas, professores e até supostos amigos. E fui agredida, perseguida e maltratada de tal forma que mudei de escola para conseguir terminar o 12º ano.

Quando atingi a idade adulta descansei um pouco. As pessoas pareciam ser um pouco mais tolerantes e eu restringi ao máximo o número de pessoas com quem me dava. Mas foi só fogo-de-vista. Continuei a ser altamente discriminada, inclusive pelos supostos amigos gays que eu pensava ter. Como “era” um “gay efeminado” gozavam comigo, humilhavam-me e era constantemente posta de parte. Mas eu não era nem homem, nem gay, nem um gay efeminado. Era uma mulher. E foi essa clarificação na minha cabeça e a subsequente abertura que dei a mim própria para me assumir como tal, que baralhou de novo as cartas e o meu mundo ruiu outra vez, ainda mais violentamente.

As pessoas afastaram-se de mim. Quem eu pensava que era amigo, não era. Passei a ser tratada de outra forma por toda a gente, mesmo em casa. Foi muito complicado. E foi aí que não só comecei a lutar contra a maré, como, sem ter ainda grande consciência disso, comecei a autodestruir-me.

Essa dicotomia do ser mulher e ter que lutar para que o mundo me visse e aceitasse como tal, e a minha luta interior para me aceitar como era, acabaram por, ao longo dos anos, me corroer por dentro, o que se reflectiu por fora. Isto é algo que partilho com naturalidade, pois é um risco que qualquer mulher que nasça como eu corre. As pessoas gostam muito de dizer “ah, eu não me arrependo de nada”, pois fica sempre bem e dá uma imagem de autoconfiança que na maioria das vezes é falsa. Mas eu digo o contrário: arrependo-me de muita coisa.

Arrependo-me de não me ter assumido como mulher antes. Arrependo-me de não ter tido nem força nem coragem para enfrentar tudo e todos para ser quem sou… Isto soa completamente esquizofrénico, não é? Eu ter que lutar para ser quem sou. Ridículo. Ninguém deveria ter que lutar para ser quem é! Eu sou assim e é assim que as pessoas me deviam aceitar, sem sequer questionar isso. Mas não, como todos sabemos. A realidade é bem mais dura e o oposto disto.

Compartilho convosco estas dissertações, estas experiências pessoais, pois é muito importante não cair no que eu caí. É muito importante manter sempre a cabeça erguida e a auto-estima e autoconfiança lá em cima. Quando me apercebi que me estava a destruir tanto por dentro, como por fora, já era tarde demais. Não se deixem levar pelas bocas, pelos olhares, pelas ameaças, pelos medos. Vão em frente, sempre.

O nosso caminho é tortuoso, sofre-se muito, mas no final pode haver (e deve haver) uma recompensa: olharmos para o espelho e termos orgulho em sermos nós. Não nos deixarmos cair nos estereótipos em que nos querem encaixar, não nos deixarmos levar por ameaças, por medos. Porque, no fim de contas, o que interessa é quem nós somos. E o ser é o mais importante. Portanto, não façam como eu. Enfrentem a vida e sejam.

1 Comments:

Blogger maria castro said...

Já leio as as coisas que escreves á muitos anos.Surpreendes sempre com a tua acutilância e inteligência.Tu não sabes, mas foi por influência tua que começei o meu processo.Admiro-te muito,muito mesmo.Chorei com o que hoje li aqui,porque as tuas palavras traduzem tanta coisa que sinto...Gostava tanto de te tirar desse buraco negro onde te encontras,deixa-me imensamente triste, perceber que uma pessoa tão fantástica não tem tido da vida tudo o que merecia. Um beijo grande miúda,força e obrigada por tanta inspiração!

dezembro 20, 2013 10:54 da tarde  

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