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Sou uma mulher transexual de Lisboa, Portugal, onde nasci e cresci. Neste espaço poderá encontrar pensamentos, reflexões e comentários inerentes à minha vida como mulher trans. Seja benvind@ ao meu cantinho.

domingo, março 20, 2016

Do casulo para o mundo

Quando me senti como realmente era, nada foram rosas. Comecei, com a ajuda de dois grandes amigos, por ser a "porteira" Lara, personagem criada para que eu me pudesse libertar e sentir melhor, numa mistura de cómico e glamouroso. Não comecei por me vestir em casa, nem a usar perucas (só no Carnaval), nem a ter uma espécie de ordem no caos que reinava em mim. A Lara porteira de jantares e festas em casa desses amigos surgiu naturalmente para mim, e serviu de alavanca para que eu me pudesse finalmente assumir em relação a todos os meus amigos e família.

É sempre um ponto-chave aquele em que nós, mulheres trans, começamos a assumir a nossa verdadeira identidade, ou seja, a vestir-nos e a estarmos de acordo com o nosso verdadeiro género. Todos os casos são diferentes, mas têm uma coisa em comum: temos sempre que o fazer às escondidas da família e, muitas vezes, dos próprios amigos. No meu caso foi da família. Em relação aos amigos, e como referi acima, dois deles, dois irmãos que muito prezo, foram fundamentais para eu sair do meu casulo e começar a ser quem eu realmente era. Surgiu a Lara porteira.


A Lara porteira era uma figura primordial, para mim. Bem maquilhada, penteada e sempre com um belísssimo figurino (e sempre diferente), era eu que abria a porta a todos os convidados que iam a jantares e festas em casa desses meus amigos. Acho que tudo começou por uma brincadeira, e acabou por se estabelecer que a Lara se ia manter como porteira durante algum tempo. Nunca nada foi premeditado. Acho que os meus amigos eram bem mais perspicazes que eu e a ideia surgiu deles e continou durante algum tempo. Diverti-me imenso e sentia-me uma espécie de Gata Borralheira naquelas noites de festa. Nunca lhes poderei pagar o prazer e a imensa felicidade de poder ser eu, nem que fosse por uma noite de vez em quando.

Depois, no final da noite, despia a roupa, descalçava os saltos altos, e retirava a maquilhagem para poder voltar para casa dos meus pais, onde vivia na altura. Era muito triste, muito difícil para mim, mas tinha que ser. Sim, porque apesar deles saberem que eu era uma mulher transexual, não permitiam que eu me apresentasse como mulher de forma alguma. Só o facto de eu fazer questão de ter o cabelo comprido já os incomodava e qualquer peça de roupa que eu usasse mais feminina ou que deixasse dúvidas dava logo em discussão e ameaças.

Só quando saí lá de casa deles é que pude começar a viver. No emprego que tinha na altura era assumida já, e quando passei a ir trabalhar vestida de uma forma mais feminina e que não deixava dúvidas quanto ao meu género não houve nenhum tipo de problema. Nem eu nunca admiti faltas de respeito, nem bocas à forma como me deixava ou não de apresentar. Sei que houve muitas críticas, muita maldade nas minhas costas, mas à minha frente nunca ninguém teve coragem de dizer ou insinuar nada.

E a Lara porteira tinha dado lugar à Lara. Eu já era eu, a cem por cento, 365 dias por ano. Tinha um sítio onde viver, tinha o meu emprego, tinha a minha vida. Nunca me senti tão livre. E comecei a fazer alguns ensaios para trabalhos de amig@s na altura. E comecei a ir aos Prides sem vergonha e sem ter que me vestir às escondidas e ter que me despir antes de chegar a casa. Devo muito a este pequeno grupo de amig@s que me ajudou e apoiou incondicionalmente quando eu mais precisava. Se tivesse sido mais cedo na minha vida, provavelmente eu teria sido posta fora de casa, como ainda acontece a uma grande maioria das mulheres trans. Eu preferi jogar pelo seguro e apagar-me durante a maior parte da minha vida. O sofrimento de não poderes ser tu no dia-a-dia é algo que não consigo explicar, nem expressar. Só quem passou ou passa pelo mesmo entende a dor. E este post é dedicado a todas as mulheres trans. Porque o que nós somos não é vergonha nenhuma. Porque o que nós somos é natural e porque somos merecemos todo o respeito do mundo.



Todas nós temos as nossas histórias de vida e de como saímos do casulo e nos libertámos. Eu nunca tinha falado da minha. Agora senti que tinha chegado o momento e deixei aqui o meu testemunho. Sejam sempre vocês próprias e vão em frente. Se vocês não lutarem pelos vossos direitos, acreditem que ninguém mais o fará. E respeitem-se. E exijam respeito. Não há nada mais maravilhoso do que sermos nós próprias. E o caminho somos nós que o trilhamos.


Fotos do meu Arquivo Pessoal. Agradecimentos: Paulo Araújo, Iolanda, Carina Lima, Diogo Andrade.