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Sou uma mulher transexual de Lisboa, Portugal, onde nasci e cresci. Neste espaço poderá encontrar pensamentos, reflexões e comentários inerentes à minha vida como mulher trans. Seja benvind@ ao meu cantinho.

domingo, fevereiro 23, 2014

As regras da atracção ou a falta delas

As regras da atracção. Sempre achei uma certa piada a esta frase, como se o que sentimos por alguém pudesse ter regras, pudesse ser quantificado de alguma forma, ou regido pelas estrelas. No que ao que sentimos diz respeito não há regras, não há imposições, não há predefinições. Sentir é sentir. Podemos é reagir numa certa linha ao que sentimos. Existe aí um instinto que nos leve a aceitar ou rejeitar quase mecanicamente o que sentimos.

Escrevo sempre (ou quase) sobre o que sinto ou como sinto o mundo, as pessoas, as situações que me rodeiam. Escrevo sobre a minha experiência como uma mulher que teve o azar de nascer trans. Sim, considero-o um azar, não uma sorte. Sorte, para mim, era ter nascido cisgénero. Isto não implica que eu não me sinta minimamente bem na minha pele e que tenha vergonha de ser quem e como sou. Nada disso. Apenas não faço, nem nunca fiz, a apologia do "é tão bom ter-se nascido numa minoria dentro das minorias e ser discriminada por toda a gente".

Temos pena, mas eu não sou assim. Eu não penso assim, nem vejo o mundo assim. Sinto-me abençoada por ter nascido num mundo tão belo, mas onde a esmagadora maioria das pessoas não presta. Mas a quantidade das que prestam fazem-me sentir uma pérola perdida num oceano de mentes mentecaptas e retrógadas. E isto tudo é emoção, é sentir. E é sobre o sentir que este post fala.

Todas as mulheres sabem o que é sentir-se atraídas ou sentir que são o alvo da atracção de alguém. Sejamos mulheres trans ou cisgénero, a estória é a mesma. Todas nós reagimos é de forma diferente. Não posso falar ou escrever sobre as outras, sobre a experiência delas. Apenas me posso cingir à minha experiência sobre as famosas regras da atracção. Esta atracção que é um sentir tão especial, tão leve, tão sub-reptício.

É algo que nos entra pela alma quase sem darmos por ele. Um olhar, um gesto, uma palavra, um toque de raspão da mão dele na minha. Qualquer coisa destas e muitas mais podem estar na base de algo muito forte, que nos pode levar, ou não a algum lado. Todas temos esquemas mentais emocionais pré-definidos para lidar com isto, quer tenhamos consciência ou não. Eu, pelo menos tenho. E não tomei conhecimento disso há muito tempo atrás.
 
 

Não gosto de jogos de sedução, confesso. E, quando acontecem, espalho-me ao comprido. Existem jogos de sedução quando ambas as pessoas se sentem atraídas, obviamente. Senão, eu nem percebo sequer que ele quer alguma coisa, ou vice-versa. Sou muito pragmática, eu sei. Sim, sou-o até na minha atitude perante a sedução, fase dois da atracção. Lembro-me de ainda ser bastante jovem e sair à noite e notar que um rapaz me olhava de uma forma "esquisita", achava eu. Quando percebia que aquela forma "esquisita" de olhar não era mais do que atracção, corava até às pontas dos cabelos, desviava o olhar automaticamente, só queria fugir dali.

Mas fugir porquê, perguntei-me anos mais tarde. Porque eu não me sentia uma mulher como as outras. Porque eu me sentia diminuída em relação às outras mulheres, fossem trans ou cisgénero. Sempre achei, no fundo, que eu não estava à altura de um grande amor, que teria que começar, logicamente, por uma atracção. Como não me sentia digna de tal, fugia. Mas sem ter a real noção do que se passava comigo.

Obviamente que estas baralhações mentais e emocionais se devem muito ao facto de uma mulher ou homem trans serem obrigados a viver praticamente duas vidas numa só. Eu fui obrigada a comportar-me como "homem", algo que nunca fui, e que rejeito liminarmente e sempre rejeitei. E com esta "obrigação" social veio a revolta. Da minha aparente calma saía uma revolta monstruosa contra tudo o que me estavam a tentar impingir. Valores sociais que nunca me disseram nada, comportamentos que não correspondiam ao que eu era, formas de estar e até de sentir que não eram meus. Nunca foram.

Quando dei o grito de revolta e parti a loiça toda, tudo isto se esboroou como um castelo de areia. Virei uma terrível página da minha vida, uma página de lavagem cerebral, e comecei do zero, a aprender a ser eu. E isto reflectiu-se na minha relação com os outros. Deixei de aparentar para ser. Mas era (e ainda sou) extraordinariamente naive em muita coisa ao que os sentimentos e emoções dizem respeito. Aprendi que não há regras. Eu sou única, como tu também. E eu reajo como eu, tu reages como tu. O problema são as cicatrizes que ficaram.

E além destas cicatrizes emocionais ficou muita culpa. Muita mea-culpa por ser quem sou. A santa ignorância e estupidez natural que paira socialmente por aí diz que nós somos assim por "opção", ou então que é uma "escolha". Se as pessoas tivessem um mínimo de tino na cabeça veriam automaticamente que nada disto faz algum sentido. Mas em frente, pois não vale a pena bater mais nos ceguinhos, já deu para ver que muito ou nada muda ou mudará. E que mais tarde ou mais cedo, ainda acredito que as pessoas vão entender quem somos. Caramba, está-me a dar um ataque de optimismo!

Atracção. Ponto fulcral no início de uma relação amorosa, ou de um enamoramento, ou o início de nada, que é mais a minha onda. Ao contrário do que possam pensar, a minha líbido é igual à das outras mulheres. Sim, não é por ser uma mulher trans que sou ninfomaníaca. Podia ser. Mas não sou. Também não sou aquela mulher que seja muito física. Pois, realmente não sou. Ainda por cima, não sou mulher de ter o mínimo de envolvimento sem conhecer a pessoa, e ter uma atracção por essa pessoa. No fundo, o que eu sou mesmo é uma gaja à antiga, tirando a parte do ir virgem para o casamento.

Fora de brincadeiras, e como vêem, não correspondo em nada ao estereótipo que existe da mulher trans. Sinto como as outras, sou como as outras. Nada, no meu ser, é assim tão diferente de uma mulher cisgénero. Nem a atracção e as suas regras ou falta delas. Uma das minhas, pelos vistos, é "fugir" ou "afastar-me" quando me apercebo do que se passa. Quer isto dizer que quando um homem se interessa por mim, eu tendencialmente fujo a sete pés. Não, não deixo o sapatinho de cristal. Em geral deixo é uma amargura no ar e tristeza no meu olhar.

Porque fujo? Não sei. Se calhar tenho medo de ser feliz, como já me disseram. E os medos fazem parte de cada momento da nossa vida. Cheguei onde cheguei porque os fui vencendo, um a um. Mas há medos que não só nunca se perdem, como crescem com as más experiências. E eu confesso que não consegui ainda ultrapassar muitos. Talvez por isso esteja viva. O que não implica que esteja mais feliz, contente ou alegre.

No fundo, eu continuo a ser aquela miúda que foge de um olhar. Que se esconde atrás de si mesma porque tem medo de sofrer. E objectivando isto, tenho mais consciência de quem sou. E que a droga que a atracção solta no meu sangue está viva, mas só eu a vejo. Não sejam como eu e mostrem-se. Vivam a atracção sem regras. Ou façam as vossas próprias regras. O que interessa é que sejam dignas e próprias de vocês. Regras da atracção? Bullshit!
 
Fotografia: Clara Azevedo/2003 - Todos os direitos reservados

3 Comments:

Blogger Seni Gaio said...

Gostei muito! (especialmente do 2º parágrafo...)

Os meus parabéns:)

fevereiro 23, 2014 12:59 da tarde  
Blogger Lara Crespo said...

Muito obrigada pelo feedback, Seni. É sempre bom saber que nos lêem e melhor ainda que nos lêem e gostam!
Um beijo e escreva sempre,
Lara

fevereiro 23, 2014 3:30 da tarde  
Blogger maria castro said...

Lara todo o post è excelente como já nos habituaste!De facto o 2º parágrafo é extraordinário,pois estão lá descritos sentimentos que eu também experienciei.Falo no passado,mas mas o correcto seria falar no presente,porque acho que arrasto comigo essa sensação de não merecer coisas boas,de me sentir diminuída como dizes.Mudei bastante o meu aspecto físico,não tanto como gostaria,mas desconfio que mesmo que me tornasse numa mulher deslumbrante,como tantas trans que vemos por aí,este sentimento estaria sempre presente.Julgo que vivemos tantos anos reprimidas,no meu caso demasiados,que ficamos com estes sentimentos gravados na alma e no coração.O amor para mim è uma coisa,que só acontece às outras.Eu como tu,quando sinto que estou a ser alvo de interesse por parte de algum homem,a primeira reação è a fuga,basicamente não deixo espaço para que se aproximem!São coisas que trago de trás,esquemas mentais errados claro,mas que estão enraizados em mim.O suposto acompanhamento psicológico que temos è uma treta, pois fala-se em tudo menos em assuntos como este que tinha todo o interesse em ser trabalhado com os técnicos.Como mudar de perspectiva?Não sei...ando a fazer tentativas!

Bj
Continua a brindar-nos com os teus posts maravilhosos,onde exorcisas os teus fantasmas e os meus,e provavelmente os de outras.

P.S.Um destes dias faço-te chegar às mãos uma carta que escrevi para ti à 4 anos atrás...e que nunca te enviei!

fevereiro 23, 2014 5:28 da tarde  

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