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Sou uma mulher transexual de Lisboa, Portugal, onde nasci e cresci. Neste espaço poderá encontrar pensamentos, reflexões e comentários inerentes à minha vida como mulher trans. Seja benvind@ ao meu cantinho.

sexta-feira, fevereiro 07, 2014

Rússia Nazi, Transmisoginia e os preconceitos revelados

No dia em que começam os Jogos Olímpicos de Inverno na Rússia, decidi fazer uma reflexão sobre a crescente "onda nazi e de extrema-direita" que pulula um pouco por todo o mundo. Desde os EUA, em que o debate sobre questões trans está ao rubro, até aos países de leste, onde incluo a Rússia, onde pessoas com uma orientação sexual que não a "normal" a pessoas com uma identidade de género diferente são perseguidas, humilhadas, torturadas e assassinadas, convém termos bem noção das consequências que tudo isto irá ter, e mais importante, que já está a ter.

Só não vê quem não quer. São diárias as imagens, os vídeos, as peças jornalísticas sobre violações consecutivas e reincidentes dos direitos humanos um pouco por todo o mundo. Curiosamente, ou não, o grupo de pessoas que são geralmente as vítimas são pessoas do extenso grupo LGBTI. No Brasil, as mulheres trans são perseguidas por todo o lado, e raro é o dia em que não há, pelo menos, notícia de uma mulher trans assassinada algures neste país, infelizmente nas estatísticas internacionais como aquele onde mais mulheres trans são assassinadas em todo o mundo.

A Rússia está na ordem do dia com as suas recentes leis contra a suposta "propaganda gay", e isto tem tomado tais proporções, que o presidente da câmara da cidade organizadora dos JOI, Sochi, afirmou à comunicação social que "não há, nem haverá, gays e lésbicas nos Jogos Olímpicos e na cidade". Bem, isto soa-me tão disparatado como perigoso. Eles vão controlar a orientação sexual e a identidade de género dos milhares de visitantes e de todos os atletas? Mesmo daqueles que já assumiram publicamente serem gays ou lésbicas? E o que fazem a estes atletas? Expulsam-nos? Prendem-nos? Matam-nos? Sinceramente não entendo como é que a entidade internacional que seleciona onde se vão realizar os JO e os JOI, depois de toda esta polémica manteve a Rússia como país anfitrião. Devia, isso sim, retirar a candidatura da Rússia e entregá-la a um país que respeite as pessoas e, acima de tudo, a dignidade, a liberdade, e a imensa diversidade do ser humano.

E da Rússia, onde deveria ter havido um boicote geral aos JOI, passo para os EUA. Depois da "barracada" da entrevista televisiva realizada à actriz Laverne Cox e à modelo e actriz Carmen Carrera, em que o enfoque da senhora que as entrevistou foi o que é que, afinal, as duas tinham entre as pernas, eis que mais uma vez, uma mulher trans é vítima de transmisoginia na televisão americana. Janet Mock, mulher trans, activista, advogada e escritora, acabou de ver sair para as livrarias o seu livro "Redefining Realness", onde, segundo sei, entremeia a sua história de vida com várias questões pertinentes para as pessoas trans, como a visibilidade, o coming out, a transição e o mais importante: a identidade de género.



Com uma mente aberta e sempre atenta à realidade das mulheres trans, em particular, Janet tem escrito crónicas deveras interessantes para jornais americanos e para diversos sites e blogs. Com este livro, ela pretende dar a volta à transmisoginia que cada vez mais existe por todo o lado, e dar um enfoque humano, positivo e lutador às questões ligadas à transexualidade. Pois bem, Janet deu uma entrevista a um programa da cadeia CNN, na qual o seu entrevistador é um senhor que vem de pasquins de histórias que têm tanto de cor-de-rosa como de escandaloso, logo não seria de esperar que a entrevista fosse correr muito bem.

E não correu. As perguntas caíram nos habituais preconceitos e pré-conceitos do que é ser-se uma mulher trans, Janet rebateu como podia, mas o senhor desde referir que ela "nasceu homem" - ao que ela retorquiu que "não nasceu homem, nasceu um bebé", como qualquer pessoa aliás, tentou saber vezes sem conta afinal que genitália a senhora tem entre as pernas. Vai daí, e como se vê, isto não correu nada bem e, apesar de Janet Mock se ter defendido bastante bem, caímos na humilhação constante por que nos fazem passar e de que ela foi vítima.

Após a entrevista, tudo o que é activista trans nos EUA se levantou contra a forma como Janet foi tratada e a própria Laverne Cox, que já tinha passado por algo semelhante, veio dar um basta neste disparate global da fixação nos genitais, do preconceito estigmatizado do "era homem e agora é mulher", cingindo-nos sempre a questões preconceituosas e secundárias e relevando constantemente para segundo plano o nosso valor como mulheres, sejamos actrizes, escritoras, modelos, trabalhadoras sexuais, mulheres a dias, etc., etc. Realmente, meus amigos, já chega de bater nas ceguinhas, porque acho que já estamos todas fartas da mesma conversa.

E toda esta carga de preconceito e discriminação, seja em relação à orientação sexual, seja em relação à identidade de género, passa-se um pouco por todo o mundo, e Portugal não é excepção. A onda imensa, até lhe chamaria o "tsunami de extrema-direita" que está a inundar o mundo também já cá chegou. É cada vez mais vulgar e comum uma mulher trans ser discriminada na rua, num café, numa repartição pública, num hospital, etc. Há cada vez mais ameaças à nossa integridade física, e as mulheres trans têm cada vez mais medo de sair de casa.

Há uma transmisoginia latente nesta sociedade em que tudo se está a pôr em causa agora. Convém, então, tomarmos como exemplo o que se passa lá fora, para estarmos atentas aos sinais, cada vez mais visíveis, do que se passa cá dentro e podermos actuar. Recuso-me a ter medo de sair à rua e tomar o meu café. Recuso-me a ser tratada como lixo. Recuso-me a que me reduzam à minha genitália. Recuso-me a viver em medo. Aliás, não o tenho. Sempre dei a cara e continuarei a dar. Menos, convém ressalvar, para programas de televisão ou entrevistas que tenham em vista explorar o que aparento ser, não o que sou.

Resta-me agradecer a pessoas como Janet Mock, Laverne Cox, Carmen Carrera, Monica Roberts e Isis King, entre muitas outras, que continuam a lutar pelos direitos universais das mulheres trans. Por cá, a gente faz o que pode. E continuará a fazer.
 
---> Janet Mock - Fotografia de Aaron Tredwell
 

1 Comments:

Blogger maria castro said...

De facto tudo isto assusta.Ainda acho que vivemos num país de brandos costumes,onde o preconceito existe sim,mas onde me sinto relativamente segura.Estes extremismos sao perigossimos,è inadmissivel deixar que um pais tão homofobico,tranfobico e sei lá que mais,organize um evento desportivo desta envergadura.Ainda um dia destes fui a um teatro,e fui convidada a assinar uma petição a favor de um activista gay Bielo Russo preso e espancado por defender o que acha justo.Somos todos pessoas,juro que não entendo este ódio.Mas se for necessário por-me em bicos de pé falo-ei,não terei medo.Mas de facto aterroriza-me a ideia de um dia ver destas atrocidades no meu país.

fevereiro 09, 2014 11:12 da tarde  

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