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Sou uma mulher transexual de Lisboa, Portugal, onde nasci e cresci. Neste espaço poderá encontrar pensamentos, reflexões e comentários inerentes à minha vida como mulher trans. Seja benvind@ ao meu cantinho.

domingo, julho 02, 2017

Marilyn e eu

Passado algum, para não dizer bastante tempo, volto a escrever aqui, no meu blog. No último ano, optei por ir escrevendo algumas coisas, poucas, no meu perfil do facebook só para amigos, pois já estava cansada dos trolls e "amigos" que gostavam muito de "comentar" os meus posts.

Hoje voltei, não sei bem porquê, mas há coisas que não têm explicação. Nem lógica, nem racional e provavelmente nem emocional. Só sei que me apeteceu escrever aqui e que um sonho que tive me despertou para a fragilidade da nossa vida e de tudo o que ela comporta.

Sonhei que eu era a Marilyn Monroe. Numa versão diferente e alienada - como em todos os meus sonhos, pelo menos - sonhei que tentava lutar desesperadamente por um sentido para a minha vida, mas nunca o encontrava. As pessoas aproximavam-se de mim pelo que eu aparentava e não por quem eu era. E eu tinha um medo louco de enlouquecer por menor sentido que isto possa fazer. E sei que era uma Marilyn morena. 



Facilmente qualquer pessoa constata que eu nada tenho a ver com essa actriz que sempre muito admirei. Fisicamente, óbvio. Psicologicamente nunca poderia falar, mas parto do princípio que somos muito diferentes. Curiosamente, nunca a vi como o ícone supremo da beleza apenas porque sim. Sabemos que ela foi um produto bem acabado de uma indústria que a esmagou e destruiu. E eu sempre me senti fascinada pela "verdadeira" Marilyn. Aquela mulher-menina tímida, de olhos tristes e brilhantes e de uma inteligência e sensibilidade enormes, ao contrário do que teimam em lhe atribuir.

Não há hoje em dia nenhuma personalidade que eu gostasse de conhecer ao vivo. Mas adorava ter conhecido Marilyn. Ter percebido o que estava naqueles olhos tristes marejados de lágrimas e o que ela realmente pensava sobre as coisas - ela própria, o mundo, os outros e por aí fora. Li várias coisas que ela foi escrevendo ao longo dos anos e identifico-me muito com o tipo de sentimentos e emoções que as coisas, porventura triviais do dia-a-dia lhe provocavam.

Ela, tal como eu fiz, entrou em auto-destruição. Não suportava viver a vida que tinha e decidiu fugir para dentro de si própria. Desleixou-se, entristeceu-se, murchou. Aqui sim, sinto-me muito identificada com ela. Sinto-me identificada com a negligência com que ela passou a tratar-se e o cansaço em relação aos outros e ao que lhe despertavam que ela mostrou sentir. Eu também estou assim. Vivi mais do que ela. Vivi uma dupla vida - não a viveu ela também? Auto-destruí-me. De uma forma diferente, mas os receios e medos assemelham-se em muita coisa. Lendo os últimos escritos dela, sinto-me a sonhar os meus sonhos de pesadelo.

Pois é. Esta noite sonhei que eu era a Marilyn Monroe. E, que tal como ela, o meu fim seria tudo menos bonito, pacífico, descansado. 

Obrigada por me lerem, para quem ainda o faz.

---> Foto de Marilyn Monroe por Willy Rizzo, 1962 (ano da sua morte)