Lara's dreaming

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Sou uma mulher transexual de Lisboa, Portugal, onde nasci e cresci. Neste espaço poderá encontrar pensamentos, reflexões e comentários inerentes à minha vida como mulher trans. Seja benvind@ ao meu cantinho.

sábado, abril 09, 2011

Mais uma vez a ignorância


De vez em quando recebo uns emails interessantes, de pessoas provavelmente interessantes, mas que estragam tudo quando leio mais do que duas linhas.

O grave nesta estória é que estes homens (são poucas as mulheres que me escrevem), são tão ignorantes e estupidificados como esta sociedade em que vivemos.

Exemplos: "respeito a tua opção", "sabes, eu sou heterossexual", "pois, deve ser interessante ser travesty" ou "és MTF (Male to Female) durante o dia todo, ou só às vezes?". Bem, é que é com cada "pérola" que cada uma que guardo na memória é melhor do que as anteriores.

Vamos então um pouco ao bê-á-bá da minha situação, que é de mulher Transexual. Ser-se Transexual não é nem nunca foi uma "opção": nós nascemos assim, e mais tarde ou mais cedo assumimos quem somos, não acordamos um dia e decidimos "Vou ser Transexual!". É uma questão da nossa identidade de género, que é oposta ao corpo com que nascemos.

Depois vem a eterna confusão e complicação em torno das preferências sexuais e da Transexualidade. Ser-se heterossexual, bissexual ou homossexual são preferências sexuais. Ser-se Transexual é ter-se uma essência oposta ao corpo biológico com que nascemos - Eu nasci com um corpo biologicamente masculino, mas a minha identidade de género é feminina - daí o MTF (Male to Female). Logo, sou uma mulher Transexual heterossexual porque me sinto sexualmente atraída pelo género oposto: leia-se homens. Entendido? (Não acredito muito, mas a malta vai-se esforçando).

Agora vem a estória do "travesty". Meus caros, "travesty" não existe. O que existe é "travesti" sem Y no final, que nada tem a ver com Transexualidade, mas que estão constantemente a confundir (mais uma vez). Que uma esmagadora maioria das brasileiras transgénero que vivem em Portugal e mesmo no Brasil se identifiquem como tal é lá com elas, mas isso nem aqui nem na China faz sentido. E isto liga-se à teoria do ser-se "Male to Female o dia todo ou só às vezes". É que a confusão é tão, mas tão grande, que já quase ninguém se entende.

Vamos por partes. Brasil é Brasil. Portugal é Portugal. Lá elas definem-se de maneiras que nem lembram ao diabo, provavelmente por causa da falta de informação (que não se justifica em pleno século XXI) ou por ignorância simples. Já falei com pessoas que se identificavam como "crossdresser virando travesti", seja lá o que isso for. Ou seja, na ânsia de tanto rotular as coisas, rotula-se ou tudo por igual, ou especifia-se até ao pormenor, o que nem uma coisa nem outra fazem algum sentido.

Por causa disto, as pessoas que vivem do travestismo como profissão (encarnam mulheres num palco, não implicando isto que se sintam mulheres, o que raramente se sentem) acabaram por se denominar transformistas, para que não existam confusões. Entendo perfeitamente. Mas, na realidade aquilo a que assistimos são shows de travesti, uma arte fantástica, e que nada tem a ver com aquelas pessoas que se denominam "travestis".

No Brasil, travestis são as mulheres transgénero no geral. No particular, apenas as que se submetem a uma cirurgia de redesignação de sexo (CRS) são Transexuais, mesmo que muitas das chamadas "travestis" também o sejam. Por cá a moda vai pegando de tal forma que qualquer mulher transgénero e/ou Transexual já é tratada como "travesti".

E ter-se ou não submetido a uma CRS não faz de uma mulher Transexual. Não é a cirurgia que torna a pessoa em algo. Essa pessoa é e sempre foi Transexual. E não é por se operar ou não que vai continuar ou deixar de o ser. A CRS é um meio para atingir um fim, não um fim em si. Ninguém se torna mais ou menos mulher apenas porque se operou. E não é por não ser operada, como é o meu caso, que me sinto ou considero menos mulher. Muito menos admito que me tratem como "travesti" ou de uma forma inferior às outras mulheres.

Há anos que batalho numa maior informação da população em geral e das pessoas transgénero e Transexuais em particular. Mas parece que quanto mais se avança no tempo, mais as mentalidades recuam. Por isso me vi forçada, mais uma vez, a "bater no ceguinho" e a esplanar algumas das diferenças entre as coisas.

Acho que se as pessoas se preocupassem mais com a essência e beleza interior própria e dos outros, todos nos sentiríamos e relacionaríamos muito melhor. Pensem nisto e até breve.