Lara's dreaming

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Sou uma mulher transexual de Lisboa, Portugal, onde nasci e cresci. Neste espaço poderá encontrar pensamentos, reflexões e comentários inerentes à minha vida como mulher trans. Seja benvind@ ao meu cantinho.

domingo, setembro 30, 2007

Iranian Transsexuals

Photo Essay: Iranian Transsexuals by Alexandra Boulat/VII Photo Agency LLC

"In 1976, the supreme leader of Iran, Ayatullah Ruhollah Khomeini, imposed a fatwa to allow people with hormonal disorders to change sex if they wished, as well as change their birth certificates. Last year, 70 transsexuals were registered at the Khomenei Relief Center, a non-governmental organization that loans money to transsexuals to help them pay for surgery and to provide psychological assistance. Athena, 20, and Milad, 30, are one of many transsexuals in Iran. The pair, who met three years ago at the center, became good friends as a result of undergoing the same life experience."







Depois da ridícula afirmação do presidente do Irão, Mahmoud Ahmadinejad, de que não existem homossexuais no seu país, o que levou a plateia à gargalhada e ao gozo, decidi publicar aqui três fotos de uma excelente foto-reportagem sobre dois Transexuais iranianos. Perfeitamente tolerada no Irão, a Transexualidade tem apoios para as cirurgias e tratamentos hormonais. Por outro lado, a homossexualidade é um crime punido com pena de morte, sendo um dos mais graves deste país muçulmano. Estranho mundo este em que vivemos, não?...

Agradecimentos muito especiais ao meu querido Gonçalo Santos (fotógrafo) que me deu este link - Beijinhos e obrigada por tudo, darlings!

quarta-feira, setembro 26, 2007

Intuition's always been a woman's guide

Confesso que, nos últimos tempos, tenho feito um esforço para postar um pouco mais, mas a inspiração nem sempre surge quando queremos, infelizmente.
Hoje, com o início da Lua Cheia, parece que me sinto mais preparada para falar um pouco do que dá título a este post: a intuição ser o grande guia das mulheres.
É como se tivéssemos um sexto sentido, algo que nos distancia em muito dos homens, pois não podemos divorciar a intuição da sensibilidade. E, se elas, socialmente, sempre foram mais conotadas com a mulher, curiosamente na realidade nós desenvolvêmo-las e eles não.

A intuição feminina é algo de místico, um chamado sexto-sentido, uma sensibilidade para as auras de cada um/uma, uma sensação de déja-vu numa situação ou casa, um sonho de algo que irá acontecer. Ou, como Melinda, personagem interpretada magistralmente por Jennifer Love-Hewitt na série "Ghost Whisperer" (da qual sou fã incondicional), a capacidade mediúnica de ver, falar e ajudar aqueles que já morreram.



E a nossa vida é feita de intuições. Eu sempre intui em mim que era uma Mulher, apesar dos meus genitais dizerem o contrário, e do choque das transformações na puberdade. Foi uma das piores fases da minha vida. Desejar que as minhas ancas alargassem, que o meu peito crescesse, que a minha cintura se afunilasse, e na realidade, tudo correr ao contrário. Chorei baba e ranho, mas não havia nada que eu pudesse fazer na altura. Nem sequer sabia o que era a Transexualidade, nem sabia que existia. Era tão ou mais ignorante que a maioria das outras pessoas, pois sempre houve muito pouca informação deste(s) assunto(s), talvez por ser um dos grandes tabus da sociedade judaico-cristã em que vivemos.

Daí surgiu a grande confusão na minha cabeça, e o não saber quem era, na realidade, nem o que fazia aqui. Só mais tarde e depois de algum conhecimento pessoal e muita introspecção consegui perceber o que de tão "errado" se passava comigo. E tratei de mudar essa situação, o que faz de mim hoje, e apesar de sofrida e escaldada, uma Mulher igual a qualquer outra, independentemente do que digam. "Vozes de burro não chegam ao céu".

E a minha intuição e sensibilidade têm sido as minhas "armas" ao longo de todos estes anos de consciência plena de quem sou, e de quem são os outros. Obviamente que a minha experiência de vida de 36 anos também ajuda muito, mas as mudanças são grandes e definitivas. Sinto e sei que sou outra mulher. Já não sou a mulher naive que acha que quem se aproxima vem por bem, sem segundas intenções por trás (e não me refiro apenas a homens e atracção). Sou directa, desconfiada e honesta. Quando gosto digo, quando não gosto, ainda o digo mais depressa.

Era bom, na minha modesta opinião, que as Mulheres Trans se aproveitassem mais da sua intuição e sensibilidade. Acho que todas ganhávamos muito mais com isso.
Afinal, "Intuition's always been a woman's guide"!

P.S.: No meu site pessoal já estão disponíveis na secção "Galeria Nova" as fotos tiradas no dia do directo no programa "As Tardes da Júlia". Para verem basta clicarem AQUI

Shakira - "Pure Intuition"


quarta-feira, setembro 19, 2007

Dor de dentro


Hoje reparei numa lua pálida quando vinha para casa de carro. A Eduarda estava alheia nos seus pensamentos, enquanto conduzia, e eu olhava pela janela do carro, observando as luzinhas lá em baixo, as da ponte, as dos faróis dos carros, sempre com aquela luz ténue presente.

Presente como a minha dor, que teima em não passar. Uma dor feita de muita tristeza, de um lar desfeito, de um amor perdido para sempre, mas que teima em ficar, e de tanta, tanta coisa mais. Hoje chorei. Chorei muito. As lágrimas caíam como se os meus olhos fossem fontes. Disse à Eduarda que nunca consegui esquecer o amor que sinto pelo Jorge de quem já falei aqui.

E disse-lhe que me comecei a deixar morrer a partir do momento em que a nossa relação terminou. A minha vida reduziu-se a pouco. Tinha trabalho mas fiquei sem ele passado algum tempo. Fiquei com mais espaço para pensar. Para pensar nas coisas certas e muito para pensar nas erradas. Não tive mais nenhuma relação. Afasto os homens de mim. Nada é o mesmo sem ele.

A minha fragilidade e a minha dor vêm de dentro. De dentro da minha alma, do meu coração. Os dias correm como se se passassem segundos. Não dou por eles. Não penso. Tento tirar apenas as ideias mais recorrentes da minha mente. De resto, sobrevivo apenas. Não sinto prazer em nada, não quero fazer nada.

É como se me mantivesse hibernada durante todo o ano. O tempo já não faz sentido para mim. Já nada faz sentido para mim. Só queria adormecer e não voltar a acordar. Aí já não sentia mais a dor...

quarta-feira, setembro 12, 2007

Quatro Bês



A vida não deixa de me surpreender. A nível familiar as coisas pioraram bastante, pelo menos durante uma semana, em que até a minha mãe me falava ao telemóvel com sete pedras nas mãos. O meu irmão não me atende o telemóvel, nem que seja só para lhe falar sobre a minha sobrinha. E as pessoas que vou conhecendo melhor, ou porque tomo um café com elas (regra geral homens, ou não fosse eu hetero! risos), ou porque mantemos uma conversa fluída na net, passam, de um momento para o outro, a tratar-me de forma "diferente".

Isto é o que se chama passar de "bestial a besta". E como vêem, tenho tido provas de que isto se passa, mais ultimamente, talvez por causa das trovoadas, das pancas, do facto de eu ser uma Mulher Transexual pré-operada, talvez porque não correspondo às expectativas de quem se tenta aproximar em demasia (you know what I mean...).

Ainda por cima estou debilitada, pois estou com uma tendinite no braço esquerdo que me tolda os movimentos, e estou prestes a ser operada ao peito (espero eu!). Na próxima semana já sei quando vai ser, e lá vou eu para mais alguns exames, análises, etc.

Entretanto, deparo-me com um verdadeiro "baby boom". Pois é verdade. Grande parte dos homens que conheço (pessoalmente) ou foram pais há pouco tempo, ou estão prestes a sê-lo. Curiosamente e felizmente, a maioria dos bebés são meninas (yes!) e só vejo baba de pais (e mães) à minha volta. A todos eles os meus parabéns, apesar de eu achar pessoalmente que colocar uma criança no mundo nesta altura do campeonato é, no mínimo, arriscado.

Sei que falo também com uma pequena pontinha de inveja, pois adorava ser mãe, e esta seria a altura ideal, pois já estou a ficar velha, e quando a criança fizesse 20 anos, já eu teria 56. Tipo avó-neto/a. Mas também nunca faria parte dos meus planos ser mãe sem ter um pai para essa criança, que teria que ser adoptada por motivos óbvios.

E como não existe "pai", vou sendo "mãe" um bocadinho, dos filhos dos amigos e, principalmente, da minha sobrinha, que já vai com oito Primaveras. Linda, inteligente e toda arrebitada! Tem a quem sair...

Ai ai... Quem me dera ser mãe...

sábado, setembro 01, 2007

"As Tardes da Júlia", e o futuro...


Mais uma semana que passou, e que começou bastante bem, melhor do que eu esperava. Fui convidada, mais três meninas, a ir ao programa da TVI, "As Tardes da Júlia", falar sobre a minha experiência pessoal enquanto Transexual Feminina ou Mulher Transexual.

Confesso que estava muito nervosa, apesar de não ser o meu primeiro directo, mas fui tão bem tratada por toda a equipa, desde a produção, aos jornalistas, à maquilhadora e à cabeleireira, e pela própria Júlia Pinheiro, que tudo se tornou fácil (entre aspas, pois nunca é fácil falar de nós e do facto de sermos umas proscritas sociais).


Como ainda não tive hipótese de ver como saiu, pois apenas um amigo gravou, falo apenas da experiência de estar lá, com uma audiência exclusivamente feminina no plateau. E eu senti-me bem ali, relaxada quando entrei em directo, plena de consciência e das minhas razões. Apesar da mágoa que sentia no peito e que todos os dias me faz lembrar de quem sou. E da minha dor.

Espero que o feedback tenha sido bom e que a minha experiência, bem como das outras três convidadas, Eduarda, Verónica e Débora, possam contribuir para ajudar tanta miúda que anda aí perdida em si e no mundo, sem saber o que fazer. Eu tenho tentado ajudar no que posso. Sei que o meu caminho nesta vida passa por aí. Ajudar os outros. Só não consigo ajudar-me a mim própria. O que acho que é natural.

E enquanto o fim da minha caminhada aqui não chega (sei que está próximo), vou lutando como posso, ajudando como posso. Só espero que a grande maioria das Mulheres Transexuais que irão ler isto não o vejam como o assumir de uma derrota. Muito antes pelo contrário. Vocês têm que lutar o mais que possam pelo vosso direito a uma vida digna, a um amor, a uma grande felicidade. O que eu escrevo de mim são os desabafos de alguém que não teve a mesma sorte que vocês irão ter.

Mas lembrem-se sempre: lutem pela vossa felicidade, passe ela por onde passar, pois se vocês não o fizerem, ninguém o fará por vocês.

Obrigada pelos feedbacks que tive e por me continuarem a ler.

Lara