Lara's dreaming

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Sou uma mulher transexual de Lisboa, Portugal, onde nasci e cresci. Neste espaço poderá encontrar pensamentos, reflexões e comentários inerentes à minha vida como mulher trans. Seja benvind@ ao meu cantinho.

sábado, novembro 23, 2013

Contra-corrente, trans e companhia limitada

Quando alguém muito próximo de nós morre, além do luto por essa pessoa, fazemos o luto de todas as nossas dores, questionamos quem somos e as nossas prioridades, bem como repensamos quem somos. É uma espécie de esquema anti-corrente.

Comecei um trabalho relativamente participativo como activista trans há cerca de 10 anos atrás. Uns anos antes tinha-me descoberto e tinha iniciado o meu processo clínico num hospital público de Lisboa. Numa altura em que praticamente ninguém dava a cara como mulher trans, eu decidi dar a minha. Mostrar que nós, mulheres trans, somos mulheres como as outras, temos vidas como elas, sentimos todas as mesmas coisas.
 
 
Foi algo que eu fiz na esperança de que o meu exemplo de vida, em que optei por me anular durante mais de metade da minha vida, e todas as dores que isso traz, poderiam ajudar de alguma forma quem lesse ou visse as entrevistas que eu dava. Fui sempre eu, nunca quis (nem quero) representar uma suposta "comunidade" trans que não existe em Portugal. E por ser eu e por ser anti e contra-corrente paguei muito caro.

Não foi só o estigma social de passar a ser ainda mais vista como alguém que não é "normal" (seja lá o que a normalidade é), foi a discriminação familiar ainda mais forte, foi a crítica implícita de quem era eu para agora andar a dar entrevistas. Dei entrevistas não porque sou alguém em especial, mas como uma pessoa que tem algo a dizer e que sofreu na pele (e sofre) os constantes preconceitos e discriminação de que somos alvo diariamente.

Não quero, nem sou um exemplo para ninguém. Sou apenas alguém que decidiu dar a cara e sempre que seja necessário voltarei a dá-la. Isso não implica que sou "perfeita", que não tenho uma profunda rejeição interiorizada por quem sou, que não gosto de quem sou. Tenho muitos defeitos e muitas qualidades, e estas lutas são feitas por mim todos os dias.

Eu olho-me ao espelho e vejo algo que nunca deveria ver desta forma. Eu deveria ter nascido mulher também fisicamente. Devia ter passado pela sensação e dor do peito a crescer, da identificação imediata de mim como mulher na rua, o que não acontece. Sinceramente, não me interessa minimamente que quem leia estas linhas esteja chocada ou incomodada. Sim, porque as pessoas que escrevem sobre temas trans e são trans, mantém o grau de sofrimento e discriminação baixo e revelam e enfatizam o que é bom em ser-se trans.

Mas há alguma coisa boa em ser-se trans??? Confesso que já tenho uma certa idade e uma certa experiência na matéria, e até hoje não descobri nenhuma coisa boa no facto de ter nascido trans. Não, não é a estória batida que muitas gostam de chorar da "coitadinha". Não sou, não me considero de forma alguma uma coitadinha. Apenas não vejo o que há de bom em nascer com uma identidade de género não correspondente ao corpo. Quem vir alguma vantagem que avise, pois eu nunca descobri nenhuma.

E bons exemplos disso são a rejeição por parte da família, dos supostos amigos, da dificuldade em arranjar um trabalho, em estudar, em andar anónima na rua, o não ser apontada como uma merda de uma "freak" que não devia sequer ter direito a respirar.

Um dia destes falava com uma pessoa conhecida ao telefone e essa pessoa achou muito estranho e chocou-se com o facto de eu nunca ter tido um relacionamento sério, nem nunca ter ouvido da parte de ninguém um "amo-te". Não que nós, mulheres trans, não tenhamos o direito a amar e ser amadas, mas convenhamos que é bem mais difícil que para uma mulher biológica (que era o que eu devia ser). Mas conheço vários casos de mulheres trans que têm relacionamentos estáveis há anos, portuguesas e estrangeiras. Isto prova que é possível. Mas não para todas.

Principalmente quando há homens (no caso das mulheres trans heterossexuais) como me aconteceu a mim, que agem duma forma e falam doutra. Isso aconteceu-me, a última vez, com um actor relativamente conhecido na nossa praça, que conheci online e com quem fui falando ao longo de mais de um ano. Havia e sempre houve atracção entre nós, e ele deixou sempre bem claro que ela existia pela forma como falava. E eu deixei-me levar, porque sou realmente estúpida e naive, apesar da idade que tenho. Depois de falarmos das nossas vidas e bla, bla, bla, chegou um dia em que a conversa aqueceu, e o homem (se é que lhe posso chamar isso, em vez de transfóbico de merda encapotado) vira-se para mim, e com a maior das latas escreve (e aqui está a transcrição da linda frase): "Eu preciso de uma mulher para me excitar :( não quero ofender." - Pois, mas já ofendeste "amori". Queres uma mulher para te excitar??? Então eu sou o quê??? Da última vez que me vi ao espelho tinha um ar humano, mas agora devo ter umas antenas verdes e ser toda cor de rosa. Ou seja, o "menino" andou mais de um ano a gozar comigo e eu só me apercebi disso com esta "belíssima" frase que o menino revelou.

Mas a esmagadora maioria dos gajos são mesmo assim. No fundo, é isso que eles pensam bem lá no fundo. Que não somos mulheres. No máximo somos "trans". Regra-geral travestis. Gajos com mamas. Obviamente que isso não deixa de os excitar, apesar de o negarem (oh, o que os amigos iriam dizer!), como este fez. O preconceito é tão forte que eles até têm receio em se encontrar contigo para tomar um café. E relacionamentos, então? Nã, isso está totalmente fora de questão, pela família, pelos amigos, pela discriminação que eles provavelmente também iriam sofrer por aparecerem publicamente com uma mulher trans. Bem, ou isso, ou realmente eu tenho muito azar.

Só mais umas notas, que acho demasiado importantes e que se devem deixar sempre bem claras:

1. Mulheres trans são tratadas sempre no feminino, e homens trans no masculino;
2. Nunca se pergunta a uma pessoa trans se é operada. O que eu tenho no meio das pernas só a mim me diz respeito, o meu corpo não é público, é meu.
3. Nunca se pergunta qual o nosso nome de baptismo. É algo com o qual ninguém que seja trans se identifique e é extremamente ofensivo estarem a querer saber algo que nós só queremos esquecer.
4. Por último, e batendo no ceguinho mais uma vez, as pessoas trans não são doentes. Nascemos assim, somos assim, ou aceitam ou não aceitam. Mas têm a obrigação de respeitar. Respeito acima de tudo.

Sintam-se à vontade para acrescentar itens a esta lista, e a terem cuidado com este tipo de gente como esse tal actor que escreveu essa pérola que vai ficar nos meus anais.  
 
---> Make Up Artist e Fotografia: Pedro Miguel Silva