Lara's dreaming

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Sou uma mulher transexual de Lisboa, Portugal, onde nasci e cresci. Neste espaço poderá encontrar pensamentos, reflexões e comentários inerentes à minha vida como mulher trans. Seja benvind@ ao meu cantinho.

terça-feira, setembro 03, 2013

Transições, avaliações e outras considerações

Para mim, a questão da transição de uma pessoa transexual sempre foi algo de muito discutível. Houve aquelas pessoas que sempre defenderam que fazes o teu processo, fazes as cirurgias e acabou. E há quem defenda, agora, que a transição é um processo que nunca acaba, ou seja, acompanha-te ao longo da vida.



Se me perguntarem se a minha transição acabou, não sei, sinceramente, que resposta dar. Sou mulher, sempre me senti mulher, olho para mim e vejo uma mulher (ok, não tão perfeita ou bonita como gostaria, mas vejo uma mulher) e, pelos cânones da medicina nos casos de transexualidade, apenas me faltaria a cirurgia de correcção de sexo para terminar todo o processo, logo, a transição.

Mas será que essa transição é assim tão linear? Obviamente que não. Todas as pessoas são diferentes, têm desejos diferentes e vêem-se a si antes de uma forma e depois de outra, que muitas vezes não tem sequer que passar por cirurgia nenhuma. Por isso, e em pleno século XXI ainda andamos tod@s à porrada a discutir se a transexualidade e, inerentemente, as identidades trans são uma doença, ou várias.

Para mim, e felizmente que para muita gente, a transexualidade não é de todo doença alguma. É um estado. Uma condição médica, no máximo, visto que o corpo não corresponde à identidade de género. Mas será que para eu ou qualquer outra pessoa trans, a transição tem que ser tão demorada e dolorosa? De todo. O grande problema é que ninguém sabe ao certo o que é, como funciona, o que provoca.

E para complicar tudo isto ainda mais, umas pessoas trans reagem de uma forma à transição e outras de outras formas totalmente diferentes. E isto abrange tudo, desde a hormonoterapia a cirurgias, à própria forma de vestir, de se estar. Sim, porque identidade de género é uma coisa e papeis de género outra, não confundamos.

A identidade de género é aquilo que te define como ser, como pessoa. O papel de género é aquele que assumes perante a sociedade e os outros, que pode ser masculino, feminino, andrógino, ou qualquer outra coisa dentro de um espectro que nunca mais acaba. Por isso somos todos diferentes.

Eu sou mulher, transexual, heterossexual. Supostamente isto define uma pequena, mas importante parte do que sou. O meu papel de género é algo dentro do feminino. Mas não sou um estereótipo. Não ando de saias porque as outras andam, não ando de saltos agulha, não uso maquilhagem no dia-a-dia apesar de fazer a barba porque nunca tive dinheiro para fazer laser ou para retirar os pelos faciais de qualquer outra forma. E depois? Sou menos mulher porque não caio nessa parvoíce do que é suposto ser "feminino"? Sou mulher e sinto-me feminina e isso basta-me. Quem não gosta, põe à borda do prato.

Entre o início do meu processo clínico com equipa multidisciplinar de transexualidade e o fim decorreram sete anos. Supostamente deveria ser feito em dois. Conheço mais casos em que pessoas trans calcorrearam o caminho do hospital para consultas cinco anos, algumas quase o mesmo tempo que eu. Porquê tanto tempo? Porque tive o azar de calhar com um profissional, supostamente especialista na área, que a primeira coisa que referiu na minha primeira consulta, em Dezembro de 2000, era que eu me vestia "à homem". A partir daí valeu quase tudo para me fazer desistir do processo e poupar dinheiro ao Estado, desde ter consultas de três ou de quatro em quatro meses, em que batia sempre na mesma tecla: se eu dizia que me sentia mulher, então TINHA que querer fazer a cirurgia de correcção de sexo, para ficar com uma neovagina.

Como o senhor tinha muitas dúvidas a meu respeito, fez-me esperar, esperar, esperar. Negou-me tratamento hormonal, pois não tinha a certeza se eu me queria operar em baixo. Achincalhou-me o máximo que pôde sempre com o "você vem vestido como um homem" e SEMPRE me tratou no masculino e pelo meu nome de baptismo, nunca pelo que sou, mulher, e pelo nome que escolhi para mim.

E como o meu caso há, com certeza, muitos mais, principalmente nas mãos desse senhor. Por estas e por outras é que sou acérrima defensora de que se crie, em Portugal, e o mais rápido possível, uma lei integral de identidade de género como aquela que existe na Argentina. Porque a tua transição és tu que a fazes. Porque o corpo é teu e tens direito a fazer com ele o que quiseres. Porque se te deram o nome de Manuel mas tu te sentes Maria, não tens nada que ser obrigada a passar anos a ser "analisada" por quem, a um nível geral, nem sabe nada de nada. Chegas ao cartório e mudas de Manuel para Maria, ponto final.

Chega de fazerem as pessoas trans sofrerem! Nós não queremos nada de mais: apenas queremos SER! Deixem-nos SER!