Lara's dreaming

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Localização: Lisboa, Portugal

Sou uma mulher transexual de Lisboa, Portugal, onde nasci e cresci. Neste espaço poderá encontrar pensamentos, reflexões e comentários inerentes à minha vida como mulher trans. Seja benvind@ ao meu cantinho.

domingo, dezembro 20, 2015

A minha transição foi a puta da confusão

Sempre soube que era diferente das outras crianças nascidas biologicamente do sexo masculino. Fui-me tentando entender até chegar a uma fase em que, apesar da confusão na minha cabeça, tinha a certeza de que não era um homem. Em 2000 comecei a minha longa e penosa viagem por uma transição que foi um pesadelo.



Decidi fazer um processo clínico de transexualidade num hospital público. Comecei a ter consultas de psiquiatria/sexologia em 2000. O chefe de equipa e responsável precisamente pela área da psiquiatria e sexologia foi das pessoas mais asquerosas e mal-formadas que já conheci em toda a minha vida. Basta dizer que, quando terminei o meu processo clínico fiz queixa formal dele, o que, obviamente, não deu em nada.

Tive consultas com essa criatura e um psicólogo/sexólogo durante mais de dois anos. Entretanto, e depois de eu muito insistir com o chefe de equipa, lá fui enviada para o endocrinologista para começar o tratamento hormonal, o qual não comecei, porque o psiquiatra não deu autorização, pois eu, como ele fazia questão de frisar, "não me vestia como uma mulher", "não parecia uma mulher", "não me maquilhava, nem usava saltos altos nem saias". Acho que isto, além de dizer tudo, é mesmo sem comentários, certo?

Nos sete longos e penosos anos que calcorreei da minha casa até áquele hospital, nunca o psiquiatra me tratou no feminino. Eu era o tal e coiso, não a Lara, como eu estava farta de lhe dizer e afirmar. Ao final de cerca de dois anos e como aquilo não andava nem para trás nem para a frente, decidi interromper as consultas por algum tempo (também tinha uma consulta de três em três ou de quatro em quatro meses). Aí surgiu o meu primeiro contacto com a Jó Bernardo, a quem muito devo, pois além de me ajudar a perceber-me, foi ela que me impulsionou a assumir-me como eu era e sempre tinha sido: uma mulher.

Comecei a fazer tratamento hormonal cá fora, mas aconselhada e seguida por uma jóia de pessoa, uma médica endocrinologista que era fantástica no trato e no auxílio. Regressei às consultas no hospital algum tempo depois, já a fazer tratamento hormonal e com um aspecto físico já ligeiramente diferente. O psiquiatra continuou a tratar-me no masculino. Afinal, "eu não parecia uma mulher".

Nessa altura, e como eu já fazia tratamento hormonal, ele foi obrigado a mandar-me para o endocrinologista da equipa, muito a contragosto. Fiz análises e comecei a ser seguida por esse médico. 

E os anos foram passando e nada. Fiz todo o tipo de exames, coisas que eu nunca ouvi alguém ter feito num processo desta natureza, como electroencefalogramas (EEGs) e um TAC ao cérebro. Passei um mês a fazer testes psicológicos para despistarem se eu era maluca da cabeça. Fiz a análise ao cariótipo, fui fazer a minha segunda opinião com uma psiquiatra/sexóloga em Coimbra nos HUC. 

Entretanto, eu já começava a dar sinais de depressão, cansaço extremo e falta de paciência. 

Até que chegou o dia em que ele (o chefe de equipa) já não tinha mais desculpas para adiar a fase de relatórios e o meu processo completo foi para a Ordem dos Médicos para avaliação. Esta foi positiva e passei para o cirurgião. (Calma, que está quase a acabar esta pseudo-odisseia ridícula).

O cirurgião era uma boa pessoa lá no fundo, apesar das notórias limitações em perceber o que é, na realidade a transexualidade, e tinha conceitos tão ultrapassados, que eu nem sequer me dei ao trabalho de discutir ideias com ele. 

Como com o tratamento hormonal o meu peito não cresceu nada, ele optou por me colocar expansores por detrás do músculo peitoral, para assim criar caixa e depois se colocarem as próteses de silicone. Assim foi. Depois da cirurgia tudo parecia bem, ia às consultas com ele e enchia um pouco mais os expansores, até que descobri que havia algo errado num peito. Pois havia, tinha um expansor furado. Fui operada pela segunda vez para retirar esse e colocar outro.

Fiquei de tal forma traumatizada por me ver já com uma mama e sem a outra do mesmo tamanho, que adiei a colocação das próteses uns anos. Finalmente, em 2013 fui operada, já por outro cirurgião, que me retirou os expansores e me colocou as próteses mamárias de silicone.

Resumindo: fiquei com duas cicatrizes horríveis e enormes por baixo do peito e no local errado, devido a culpa do primeiro cirurgião, o meu peito ficou duro e nada parecido com aquilo que eu imaginava que seria, ou seja, parecido com o toque de umas mamas naturais, e o tamanho não é o que eu queria.

Estou em depressão profunda há anos. Tomo ansiolíticos todos os dias e só assim consigo suportar a minha vida. Nada correu como eu esperava e ter nascido uma mulher transexual não foi uma benção, não foi uma coisa normal, foi uma maldição para mim. É um estigma que tenho que carregar enquanto cá andar, e quanto a isso nada há a fazer.

Não contei tudo isto para desanimar ninguém que deseje fazer um processo clínico. Não contei isto para que dissessem que sou uma coitadinha, uma desgraçada, ou que me armo em tal. Contei tudo isto para que as pessoas tenham a noção de que nascer-se transexual deveria ser tão natural como nascer-se cissexual. Infelizmente, e por razões exteriores também a nós, a nossa vida é dificultada ao máximo por família, supostos amigos, médicos e afins. É preciso ter-se muita força, mas também muita sorte para se conseguir o que se quer e seguir em frente. Foi por isto que eu decidi escrever o martírio que passei, para que outras pessoas trans não tenham que passar pelo mesmo.

É urgente despatologizar a transexualidade e as identidades trans. É urgente pôr a Ordem dos Médicos e os seus predicados fora da vida das pessoas transexuais. É urgente podermos decidir sobre nós, sobre os nossos corpos. É urgente criar uma noção de respeito pelas pessoas trans numa sociedade que tem duas palas e só vê o que tem em frente. É mais do que urgente acabar de vez com a transfobia. Obrigada por quem leu estas palavras. Espero, sinceramente, que sirvam para alguma coisa.

---> Foto © Pedro Medeiros, Lara Crespo, 2014

domingo, dezembro 13, 2015

Saudades da vida que não tive

Num mundo cada vez mais caótico e em que as crises de valores são mais que muitas, sobreviver como uma outsider torna-se cada vez mais difícil.



Em criança sempre me apercebi da minha diferença em relação às outras crianças. Lembro-me muito bem de cada pormenor, de cada detalhe, de cada estalo, de cada humilhação, de cada castigo que sofri apenas por ser quem sou. Isto prolongou-se até à adolescência e depois por aí fora, obviamente já revestido de outra roupagem.

Sempre quis eliminar essas lembranças, esses pensamentos e muito raramente falei neles. Para mim existia e existe apenas uma parte da minha vida a recordar: a idade adulta e principalmente a fase da transição e pós-transição. O resto é merda, não interessa. Ou pelo menos era assim que eu gostava que fosse. Mas os fantasmas do passado vêm sempre assombrar-nos o presente.

E numa fase em que tudo ou quase se põe em questão num mundo em ebulição social e humana, eu própria me ponho em causa no sentido do que estou aqui a fazer. Ser uma pessoa que não se enquadra nos padrões sociais da normalidade leva-me a ter uma vida de outsider. A evitar o contacto com os outros. A tentar evitar a violência psicológica e física de que já fui vítima assim como a esmagadora maioria das mulheres que nasceram como eu e que o assumem.

Difícil, difícil é encontrar empatia, entendimento nos outros. É encontrar quem te dê um ombro e quem converse contigo, quem te entenda, quem te surpreenda por te fazer ver que também fazes parte deste mundo. Encontrei poucas pessoas assim ao longo da minha vida. E, hoje em dia, muito poucas conheço que assim sejam e que ajam de forma correcta em relação a mim.

E, numa fase em que as coisas não correm bem, mais falta sentes ainda dessas pessoas, de pessoas que são empáticas contigo e que te mostram que viver ainda vale a pena. Depois de duas pessoas muito importantes na minha vida terem estado gravemente doentes quase em simultâneo e de agora ser eu quem está doente, sinto-me demasiado desprotegida e vulnerável. As emoções são muito fortes, tudo parece exacerbado. É como uma tempestade que não tem fim à vista. 

Tenho saudades da vida que não tive. Gostava que as coisas tivessem sido de forma diferente. Provavelmente todos nós gostaríamos. As pessoas têm a mania de dizer que não se arrependem de nada. Eu não. Arrependo-me de imensa coisa e teria feito imensa coisa de forma diferente. A única coisa que nunca teria feito de outra forma era assumir quem eu sou, uma mulher, independentemente daquilo que os outros digam, façam ou pensem.

Esta sensação de estar perdida num mundo que não me parece meu tem coisas positivas. Como ver mais claramente como os outros são. E, principalmente, ver com mais clareza como eu sou.

---> Foto © Pedro Medeiros, Lara Crespo, Cais do Ginjal 2014

quarta-feira, dezembro 02, 2015

Achas que me conheces?

É curioso ver que, aos 44 anos, ainda sou tratada como "algo" de adquirido. Pessoas que, supostamente, me deviam conhecer não sabem sequer quem eu sou na realidade, e outras, como nas redes sociais, partem do princípio de que como leram entrevistas minhas ou me viram na televisão, ou viram algum depoimento meu em vídeo, eu sou "da família".



O grande problema, neste tipo de relações "reais", ou seja, de pessoas que te conhecem há anos, não interessa se muitos se poucos, é que acham que tu és assim ou assado porque lhes deste confiança demais, logo deste-lhes um conhecimento de ti que essas pessoas não só não conseguiram apreender, como desdenham dele. Não é importante o que poderiam conhecer de ti, mas os juízos de valor que elas fazem de ti. De mim, neste caso, que dou demasiada confiança e me abro demais com as pessoas e no fim, quem fica na merda sou eu, em todos os aspectos.

No fundo, essas pessoas, desde família a supostos amigos, não me conhecem nem nunca conheceram. Não que eu não lhes tenha dado as ferramentas para isso, mas porque essas pessoas ou são estúpidas, ou fazem-se. Lá porque eu lhes dei a mão, não implica que me fiquem com o braço todo, sendo que nunca é para coisas positivas. Sei que dizem e escrevem muita coisa acerca de mim e entre eles, mas nem dez por cento do que põem lá é verdade ou corresponde à pessoa que eu sou.

Isto aplica-se igualmente a quem é meu amigo nas redes sociais e não me conhece pessoalmente, partindo apenas de entrevistas minhas para me julgar. Tenho muitos defeitos, mas nunca faço juízos precipitados, muito menos juízos de valor. Essas pessoas acham que me conhecem, que eu sou assim e tal, e quando lêem o que escrevo ou o que partilho se calhar não é bem o que elas estariam à espera de mim, logo eu devo estar supostamente a enganá-las, ou enganei-as desde o início. Nada disso, elas é que tiraram conclusões precipitadas sobre mim, nunca fizeram um esforço para me conhecer, e partem de testemunhos públicos meus para me julgarem. Mas quem é que esta gente pensa que é? 

Não admito que me julguem seja pelo que for. Se, hoje em dia, eu estou mais amarga, mais fria, mais distante ou algo do género e por aí fora, muito a toda esta gente se deve. Desde a suposta "família" aos "amigos" que nunca me conheceram. Sempre mostrei quem era, fiz a minha transição e sou a mesma pessoa! Evolui e mudei. Se foi para melhor ou para pior, isso já é problema meu, não de mais ninguém. Mas não passei a tratar ninguém de maneira diferente, o que não se pode dizer dos outros.

No meio disto tudo cheguei a mais uma brilhante conclusão e verdade da vida. Quanto menos deres a conhecer de ti, melhor vives e mais em paz contigo própria estás. Se te entregas às relações com os outros, só tu sais sempre a perder, sem excepção. És humilhada, pisada e maltratada e nem sabes de onde elas te vêm. Por isso escrevo cada vez menos aqui e também no facebook. Apesar do meu grupo de amigos virtuais ser "chocantemente" pequeno comparado com o que vejo por lá, basicamente todas as pessoas importantes para mim lá estão. Ah, e nunca "desamigo" alguém sem razão. Tal como na vida real, não deixo de falar ou de me dar com alguém sem uma razão plausível para mim.

Meus e minhas car@s, eu comecei a dar a cara em 2003. Tudo o que disse em entrevistas foi verdadeiro e honesto e até falei mais do que devia, e numa grande quantidade de vezes não foi o que eu disse que foi publicado. Logo, não pensem que me conhecem só porque leram uma entrevista, ou porque me conheceram naquele dia lá no bar não-sei-quantos e trocámos dois dedos de conversa. Eu sou, tal como todos vós, muito mais do que isso, e não permito que qualquer um/a entre na minha vida.

Respeitem-me, conheçam-me e assim, sim. De outra forma, será sempre um rotundo não.

---> Foto: Eu, no espaço Mob, dia 20 de Novembro de 2015, no Transgender Day of Remembrance (TDOR) num evento organizado pelo colectivo Lóbula.