Lara's dreaming

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Sou uma mulher transexual de Lisboa, Portugal, onde nasci e cresci. Neste espaço poderá encontrar pensamentos, reflexões e comentários inerentes à minha vida como mulher trans. Seja benvind@ ao meu cantinho.

quarta-feira, junho 08, 2016

Cultura de afectos - Parte I

Os afectos são sempre complicados, porque vivemos numa sociedade em que não só eles não são validados, como valores mais altos se impõem.



Quando era criança, eu era muito afectuosa com as pessoas. Sempre fui uma beijoqueira e sempre gostei de fazer festinhas. Era a minha forma de mostrar aos outros que gostava muito deles e era uma dádiva minha, não esperava nada em troca.

Como não fui abençoada com pais e irmãos minimamente afectuosos, muito antes pelo contrário até, batia sempre com os burros na água, ou seja, ou era repelida, ou ignorada. Sentia-me magoada, mas não tinha consciência com o quê. Só muitos anos mais tarde me apercebi que era essa falta de carinho por parte deles que me marcou negativamente no meu relacionamento com os outros, especialmente no meu relacionamento com os homens, nos meus relacionamentos amorosos.

Nunca recebi um beijo ou um abraço do meu pai. Idem da minha mãe. Só existia um beijo de corrida quando eu fazia anos ou em situações em que "ficava mal" não demonstrarem algum tipo de afecto. Sempre fui mais próxima da minha mãe, mas ela nunca teve a capacidade nem o entendimento de me retribuir o que lhe oferecia de coração aberto. Quanto ao meu pai, foi sempre uma relação distante e tóxica. Muito cedo ele se apercebeu que eu "não era normal", e batia-me, maltratava-me e humilhava-me sempre que podia. Mentiria se dissesse que não guardo qualquer ressentimento disso, afinal ele era limitado demais para sequer entender o que se passava comigo e quem eu era. Mas não me esqueço das atitudes e palavras dele e sim, há coisas que nunca lhe perdoarei, mas isso fica para outro post.

A burrice natural da minha irmã e o facto de ter estado sempre ausente da minha vida, tirando pequenos períodos em que viveu em Portugal, nunca permitiu um envolvimento emocional, nem qualquer outro tipo de envolvimento, Foi uma irmã ausente e pouco ou nada há a dizer, a não ser que me entristeceu muito ver que uma pessoa que parecia ter potencial para ter uma mente aberta e criar laços de ternura não passava de uma pessoa limitada, preconceituosa e infeliz.

Quanto àquele que foi criado comigo e que partilha os mesmos pais e a quem eu poderia chamar de irmão, não vou escrever mais do que duas ou três linhas. É frio, calculista, desprovido de empatia (mas só comigo, pelos vistos) e é apenas a pior pessoa que alguma vez conheci na vida. Não há, nem nunca houve, qualquer tipo de ligação, emocional ou outra.

E da suposta "família tradicional" estamos falados. Depois existiam os amigos e as amigas. Com esses já existiam laços de alguma ternura e carinho, com uns mais espontâneo do que com outros. Mas foi um dia, há mais de 20 anos atrás que me foi dada a informação que me faltava: uma pessoa pela qual eu nutria um carinho e respeito especiais decidiu alertar-me para o facto de que, por eu ser extremamente afectuosa (claro que o discurso foi todo com os pronomes masculinos), ao invés de me aproximar das pessoas as afastava. Isto porque, segundo essa pessoa, "as pessoas não gostam de pessoas como tu, que andam sempre aos beijos, abraços e festas", logo "isso faz com que se afastem, por isso quase não te dás com ninguém". Confesso que fiquei elucidada e bastante bem.

A partir desse momento, deixei de ser quem eu sempre tinha sido até esse momento e passei a ser o que os outros não desprezavam (achava eu, na minha estúpida ignorância). Deixei de ser beijoqueira e os meus contactos físicos tão perniciosos para as outras pessoas passaram a cingir-se ao mínimo. Beijos só para cumprimentar e ao de leve, e apenas apertos de mão. Beijinhos, abraços e essas coisas acabaram-se. Afinal, essa pessoa até tinha razão. As pessoas não só não gostam, como se sentem extremamente desconfortáveis com demonstrações de afecto. 

Mesmo nos pouquíssimos relacionamentos amorosos que tive, beijos só como preliminares do sexo e o resto, abraços, festas, etc., resumiam-se a quase nada. 

É assim que o chamado ser humano vive e gosta de viver. Sem se dar, sem haver uma cultura do toque. Uma cultura em que o afecto não só se diz, como se faz. Eu rendi-me às evidências e segui o meu caminho. Se isso me faz sentir melhor ou pior? Hoje em dia é-me indiferente. Mas sofri muito com isso, se nos lembrarmos que eu passei mais de metade da minha vida num processo de transição como mulher transexual e a querer ser aceite pelos outros. Esta foi apenas mais uma acha para a fogueira da rejeição. Mas as regras do jogo são estas e foi com elas que eu, tarde demais, aprendi a jogar.