Lara's dreaming

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Sou uma mulher transexual de Lisboa, Portugal, onde nasci e cresci. Neste espaço poderá encontrar pensamentos, reflexões e comentários inerentes à minha vida como mulher trans. Seja benvind@ ao meu cantinho.

domingo, junho 02, 2013

Escrever os sentimentos

O que fazer quando se chega a um ponto da vida em que nos apercebemos com uma nitidez cristalina que falhámos em quase tudo?
O que fazer quando vemos que estamos, agora, mais sós do que há anos atrás?
Que o isolamento se tornou o nosso companheiro do dia-a-dia e que não há esperança para o amanhã?
Que aqueles de quem gostámos a sério nunca retribuiram o nosso sentimento?

Sentir que se chegou ao fim da linha, ao ponto de não-retorno é estranho. Porque as nossas escolhas e opções nos levaram a um caminho que não se bifurca.
Quando falo em escolhas e opções não falo em ser quem sou. Eu sou quem sou porque nasci assim, não porque o escolhi ou optei por o ser.
Ninguém escolhe ou opta por ser. Apenas o é.

E ninguém, digo eu, se sente feliz por ter nascido transexual. Por ter nascido num corpo que não deveria ser esse que tem. E isto não implica cirurgias. Implica aprendermos a con(viver) o melhor possível com o material físico e biológico que temos.
Mas a tristeza é grande e permanece. Desde criança que sinto que há algo que não está bem. Nunca percebi é se é comigo ou com o mundo.

Se calhar é com os dois. E por mais que eu tente explicar ou fazer passar a mensagem do que sinto, cai inevitavelmente em saco roto. Ninguém entende, nem tenta entender. Acham, aqueles que se dizem mais "abertos", "normal". O problema é que a normalidade não existe e toda a gente tinha a obrigação de o saber e de o apreender.

Não sou "normal" nem quero ser. Sou como sou. E, para mim, isso deveria bastar. Mas não basta. E pé ante pé cheguei ao ponto de não-retorno.
Olho-me ao espelho e vejo alguém que conheço mas que nunca imaginei assim com esta idade. Vejo, agora, a tristeza no olhar, e a sensação de impotência perante essas "verdades" que me esmagam.
Estou sozinha. Aliás, sempre estive. Desde que nasci. Fiz uma vida paralela a este mundo, na ilusão de que conseguisse, um dia, ser feliz.

Não tive essa sorte. Talvez porque a vida não é feita só por nós, é feita pelos que nos rodeiam e por todas as situações que são criadas à nossa volta. Sinto raiva. Raiva de mim por ter falhado, por ter tomado tantas decisões erradas e as aceitar placidamente. Decisões que se transformaram num dia-a-dia de tristeza. Isolamento.

Não quero ir lá para fora. O único sítio onde me sinto minimamente bem é na minha zona de conforto. No meu ninho emocional, junto das minhas coisas, num pequeno espaço psicológico. Não faz sentido, para mim, o que se passa lá fora. Não faz sentido a crueldade das pessoas, principalmente das que estão perto de mim. Não faz sentido expor-me a situações que me são desagradáveis, como tomar um café num local em que tudo se calou quando entrei e ficou estarrecido a olhar para mim.

Este mundo pode ser teu, vosso. Meu não é. É insuportável e insustentável ver passar as coisas à minha frente e não poder fazer nada. Ter conversas vagas, vazias e repetitivas na internet e sair mais triste com a natureza humana do que já estava. As pessoas não nascem boazinhas. As pessoas não são boazinhas. As pessoas são do mais frio e cruel que existe. E só sabem destruir tudo o que têm à volta, principalmente aquilo que dizem que amam. Mas alguém sabe o que é realmente o amor?

Duvido. Nunca senti que alguém me amasse. Não sei se já amei.
Mas não me posso esquecer que eu não sou "normal", portanto não tenho o direito a ser amada. Era só o que faltava. Se respeito é pouco, amor é zero.

Deixo aqui estes pequenos pensamentos e reflexões, que provavelmente serão a última coisa que escrevo. Quando fizer a viagem para fora deste mundo, há uma coisa que não vou sentir: saudade.
 

 
Fotografia de Inês Torres da Silva