Lara's dreaming

A minha fotografia
Nome:
Localização: Lisboa, Portugal

Sou uma mulher transexual de Lisboa, Portugal, onde nasci e cresci. Neste espaço poderá encontrar pensamentos, reflexões e comentários inerentes à minha vida como mulher trans. Seja benvind@ ao meu cantinho.

sábado, outubro 20, 2012


STOP PATOLOGIZAÇÃO TRANS - MANIFESTO 2012 - DESPATOLOGIZAÇÃO DAS IDENTIDADES TRANS!

A Campanha Internacional Stop Trans Pathologization (Stop Patologização Trans – STP 2012)…

é uma campanha mundial pela despatologização das identidades trans. Os objectivos principais da campanha são a retirada da categoria “disforia de género” / “transtorno de identidade de género” dos catálogos de diagnóstico (DSM, da Associação Psiquiátrica Americana, e CID, da Organização Mundial de Saúde), nas suas próximas edições, previstas para 2013 e 2015, bem como a luta pelos direitos de saúde das pessoas trans. Para facilitar a garantia de um atendimento público de saúde específico às pessoas trans, a STP 2012 propõe a inclusão de uma menção não patologizante na CID-11.

Desde 2007, a Campanha STP 2012 convoca, sempre no mês de Outubro, um Dia Internacional de Acção pela Despatologização Trans, com manifestações simultâneas em diversas cidades do mundo. Em Outubro de 2011, grupos de activistas de 61 cidades na América Latina, América do Norte, Ásia, Europa e Oceania organizaram manifestações e outras acções no marco da convocatória da STP 2012. Actualmente, a Campanha conta com a adesão de mais de 300 grupos e redes de activistas em diferentes partes do mundo.

Também em Lisboa será assinalada com uma acção pública a data de 20 de Outubro, Dia Internacional Pela Despatologização das Identidades Trans:
pelas 17h, no Campo Mártires da Pátria (junto à estátua do Dr. Sousa Martins).

No seguimento desta campanha, a França tornou-se o primeiro país no mundo a retirar da sua lista de doenças mentais o transgenderismo, embora no geral se tenha mantido a prática patologizante; foi adiada a publicação do DSM-V para 2013; o 5º Congresso de Sexual Education, Orientation and Therapy of the Multidisciplinary Cuban Society for the Study of Sexuality (SOCUMES), manifestou-se em favor da despatologização do transgenderismo; a proposta actual do DSM-V da APA (American Psychiatric Association) modificou o conceito de “incongruência de género”, persistindo no entanto com um conceito estigmatizador e patologizante do transgenderismo; o Governo espanhol declarou que concorda com a despatologização do transgenderismo, mas ainda não mudou a lei e a Argentina foi o primeiro país do mundo a aprovar uma Lei de Identidade de Género completamente despatologizante e com garantia de tratamento médico.

No mesmo sentido, instituições políticas internacionais, de governos e de sociedades científicas têm vindo a pronunciar-se em favor da despatologização: Relatório Temático "Direitos Humanos e Identidade de Gênero" do Comissário de Direitos Humanos do Conselho da Europa, Thomas Hammarberg, a Recomendação CM / Rec (2010) 5 do Comité de Ministros do Conselho da Europa, a Resolução 1728 (2010) da Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa, publicada em 26 de Julho de 2011, e as declarações sobre Direitos Humanos de Thomas Hammarberg - "leis claras necessárias para proteger as pessoas trans da discriminação e do ódio" – bem como de vários governos, Ministério das Relações Exteriores e da Saúde da França e do Conselho Nacional de Saúde e Bem-Estar sueco. Greffrey Reed, enviado da OMS, declarou no Congresso Nacional de Psiquiatria Espanhol, realizado em Oviedo em Novembro de 2011, existirem planos para excluir as pessoas transexuais da lista de doentes mentais na próxima revisão da classificação de Doenças (CID-11), em 2014.

O Estado não deve ter qualquer jurisdição sobre os nossos nomes, os nossos corpos e as nossas identidades. Fazemos nossas as palavras do movimento feminista na luta pelo direito ao aborto e o direito ao próprio corpo: reivindicamos o nosso direito a decidir livremente se queremos ou não modificar os nossos corpos, sem impedimentos burocráticos, políticos, económicos, ou qualquer tipo de coerção médica.

Em Portugal…

Em Portugal, apesar da aprovação, em Outubro de 2010, de uma Lei que regula o procedimento de mudança de sexo e nome próprio no registo civil, o processo médico e legal das pessoas transexuais continua longo e penoso, contribuindo para a vulnerabilização das suas vidas.

Mesmo tendo deixado de ser exigido o tratamento hormonal e cirúrgico para a alteração do nome e do sexo nos documentos de identificação, esta continua dependente de um diagnóstico médico patologizante. A Ordem dos Médicos – caso único no mundo – continua a reservar para si, sem qualquer contacto com qualquer utente, a autorização para a realização de procedimentos cirúrgicos. A actual crise económica e o evidente ataque ao SNS e aos direitos de saúde de toda a população portuguesa estão a ter impactos particulares também sobre a comunidade trans, que já antes enfrentava dificuldades acrescidas. O medo de um mau atendimento ou de represálias e/ou a ignorância dos seus direitos como utentes leva a que muitas pessoas atrasem ou nem iniciem os seus processos, entrando em tratamentos hormonais auto geridos, com os inerentes graves riscos para a saúde.

No campo da saúde, exigimos:

- A retirada da “transexualidade” do manual internacional de doenças mentais (DSM–V) e do capítulo de doenças mentais da Classificação Internacional de Doenças (CID-11). O acompanhamento psicoterapêutico deve ser uma opção voluntária. Defendemos o acesso à assistência médica e tratamento hormonal e cirúrgico pelos serviços públicos de saúde às pessoas trans que o procurem;

- Fim do parecer obrigatório da Ordem dos Médicos sobre os processos de transexualidade, devendo este organismo, ao invés, passar a garantir que as avaliações dos processos de transexualidade pelas equipas clínicas seguem as recomendações internacionais (Standards of Care da WPATH - World Professional Association for Transgender Health) referentes às pessoas trans;

- Descentralizar o atendimento cirúrgico actualmente limitado a Coimbra após a extinção da realização de cirurgias em Lisboa, com consequente perda de qualidade, bem como o atendimento psiquiátrico e psicológico;

- Descongestionar as longas e prejudiciais listas de espera e diminuir o exagerado tempo dos processos evitando a multiplicação de inúmeras avaliações psicológicas;

- Fim das cirurgias à nascença e tratamentos normalizadores a bebés intersexo.

- Fim da esterilização obrigatória de trans masculinos.

- Fim dos actuais ataques ao Serviço Nacional de Saúde, na área da prevenção de Infecções Sexualmente Transmissíveis, no racionamento ou corte de tratamentos e medicamentos no âmbito do memorando da Troika e das medidas de austeridade acrescidas.

No campo dos direitos sociais, exigimos:

- Uma verdadeira Lei da Identidade de Género, que não patologize as identidades trans e permita lutar mais eficazmente contra todo o tipo de discriminações de que são alvo no emprego, na habitação, no acesso à saúde;

- Direito à mudança de nome e sexo nos documentos de identificação sem tratamento obrigatório ou diagnóstico, ou qualquer avaliação médica ou judicial, bem como o fim das taxas exorbitantes para alteração de nome e género no âmbito da nova tabela de preços dos actos notariais;

- A inclusão da “Identidade de Género”, como motivo pelo qual ninguém pode ser discriminado, no artigo 13º da Constituição da República;

- Medidas de educação e protecção contra a Transfobia;

- Garantia de acesso ao mundo laboral e adopção de políticas específicas para acabar com a marginalização e a discriminação das pessoas trans;

- Condições de saúde e de segurança no desenvolvimento do trabalho sexual, a que muitas pessoas trans recorrem em consequência da sua sistemática exclusão social e laboral, e o fim do assédio policial a estas pessoas, bem como do tráfico de pessoas para fins de exploração sexual;

- Concessão imediata de asilo político às pessoas trans imigradas que chegam ao nosso país fugindo de situações de discriminação e violência em função da sua identidade de género.

Queremos também recordar todas as agressões, assassinatos e suicídios de pessoas trans causados pela transfobia. Não somos vítimas, somos seres activos e com capacidade de decisão sobre a nossa própria identidade. Portugal ainda se lembra do assassinato transfóbico da trans Gisberta, há seis anos, no Porto, às mãos de um grupo de adolescentes, e do assassinato da trans Luna, em Lisboa, dois anos depois.

A transfobia mata. O silêncio também.

Subscrevem a campanha STP2012 em Portugal:
Grupo Transexual Portugal,
Panteras Rosa - Frente de Combate à Lesbigaytransfobia,
GAT - Grupo Português de Activistas sobre Tratamentos de VIH/SIDA Pedro Santos (Lisboa),
Portugalgay.pt,
Opus Gay,
SOS Racismo,
UMAR - União Mulheres Alternativa e Resposta,
Poly Portugal,
não te prives – grupo de defesa dos direitos sexuais,
Caleidoscópio LGTB

domingo, outubro 14, 2012

Despatologização e reflexões

No próximo Sábado, dia 20 de Outubro, muita gente por este mundo fora vai lutar pela despatologização da Transexualidade e das Identidades Trans. Este é o mote que me leva a fazer aqui uma breve reflexão de 41 anos de vida.

Nasci como nasci e como me sinto: mulher. A única coisa que não correspondia era o meu corpo. Os "especialistas" na matéria dão muitas explicações, mas nenhuma certeza, pois ninguém sabe (e duvido que venha a saber), porque algumas pessoas nascem como eu. O que é que eu acho? Que é um erro. Nasci errada. Nasci mulher com características físicas que não devia ter. Se cirurgias e hormonas te ajudam numa vida tão cheia de preconceito, discriminação e luta? Sim, ajudam, pelo menos aquelas que são "visíveis", como a mamoplastia no meu caso. Se a cirurgia de redesignação de sexo muda alguma coisa na tua vida? Para muitas pessoas muda, para mim duvido que mudasse. Não é pela minha genitália de nascença que eu me defino, nem nunca senti um desejo de a mudar, ou tive um sofrimento horrível com essa genitália, como muitas pessoas transexuais têm. A transexualidade, para mim, é uma questão de essência acima de tudo, que não joga com o resto. Mas isso não faz de mim, nem de ninguém, doente.

Tive uma vida triste, apesar de aparentar quase sempre ser uma pessoa alegre. Acho que era a maneira de dar a volta à questão de me sentir uma alien neste mundo de sociedades supostamente tão perfeitinhas e tão certinhas. Aquele é homem, aquela é mulher. Ok, e no meio disso tudo onde encaixo eu? Encaixo em mim, porque sou única e não sou igual ou parecida com nenhuma outra mulher, seja em que parte do mundo for. Lá por nunca me ter aceite plenamente e nunca ter aceite ter nascido como nasci, sempre senti que tinha que partilhar com outras pessoas o que se passava comigo. Podia ajudá-las, pensava eu. Vejo, hoje em dia, que foi partilha feita em vão. E a maior prova disso foi um curso livre dado nas instalações da UMAR em Lisboa, em que fui convidada a partilhar parte da minha vida. Fui acusada de me estar a "fazer de vítima", sendo que apenas relatei factos da minha vida. Não fiz juízos, não dei a minha opinião, apenas contei partes da minha vida real. É muito grave e de uma burrice e arrogância enorme, alguém que não me conhece me acusar numa Associação que apoia mulheres essas sim, vítimas, de me estar a fazer de vítima. E, pelos vistos, a opinião dessa senhora deve-se ter espalhado, pois certas reacções de pessoas que eu julgava que me respeitavam, mostraram o maior desrespeito por mim, pela minha história de vida e por quem sou.

Continua também a eterna dicotomia trans-orientação sexual. Meus caros leitores, como sabem, ou deviam saber, identidade de género nada tem a ver com orientação sexual. Identidade de género define-te como ser, como pessoa, orientação sexual define quem te atrai sexualmente. E aqui entram as etiquetas. Muito se tem falado em conversas mais privadas, da mania que as pessoas têm de querer definir e etiquetar tudo. Aquela é trans, mas gosta de mulheres, o outro é homem mas gosta de homens, aquele é um homem com mamas e por aí fora. Cada um é como é, por mais cliché que isto seja, e cada um gosta do que gosta. Não temos que estar a etiquetar tudo duma forma compulsiva, pois isso só destrói a essência da própria pessoa: deixa de ser um ser humano, para ser um monte de conjecturas, substantivos e adjectivos.

Quando fui em 2007 ao programa que Júlia Pinheiro fazia na altura na TVI, foi-nos questionado (às quatro convidadas trans) quais as nossas orientações sexuais. Cometi um erro. Defini-me como uma mulher transexual heterossexual. O erro não está na definição nem na verdade do que disse. Está que ninguém percebeu nada, nem a própria Júlia Pinheiro, que é uma querida. Por um lado, porque as pessoas partem do princípio que as trans são gays - não são, não são homens, são mulheres, por outro lado, porque a maioria das pessoas deveria e deve pensar ou supôr que sou lésbica ou bissexual, o que não corresponde de todo à verdade.

Resumindo, a minha pessoa é mulher, e gosto, sinto-me atraída, exclusivamente por homens. Pelos vistos há quem se sinto ofendido ou ofendida pessoalmente com isto, vá-se lá saber porquê, mas é assim, e assim terão que me aceitar. Como costumo dizer, quem não gosta, põe à borda do prato. Ou seja, retirando as etiquetas, é isso que eu sou. Chego aos 41 anos triste, infeliz, incompleta. Pensei que isto seria a crise dos 40 até que me apercebi que sempre me senti assim. E nada vai mudar isso. Agora a tal senhora e amigas já podem afirmar que eu me faço de vítima. Gostava era que elas tivessem nascido como eu nasci e tivessem passado por tudo o que passei até hoje, para ver a "endurance" delas. Pelo menos eu assumo as minhas tristezas e fraquezas, não me escondo acusando os outros.

Sei que não viverei muito mais e que o meu "trabalho" neste mundo que conheço está praticamente feito. Luto e lutarei até ao fim para que não nos considerem doentes seja mentais, seja de que tipo for, e que nos deixem ser, apenas isso. No fundo não queremos mais nada a não ser sermos nós sem preconceitos, discriminações e merdas do género. Não nos continuem a pôr mais uma etiqueta. Deixem-nos ser pessoas como as outras, que é isso que nós somos.

E no próximo dia 20 de Outubro, lutemos para que nos "despatologizem".