Lara's dreaming

A minha fotografia
Nome:
Localização: Lisboa, Portugal

Sou uma mulher transexual de Lisboa, Portugal, onde nasci e cresci. Neste espaço poderá encontrar pensamentos, reflexões e comentários inerentes à minha vida como mulher trans. Seja benvind@ ao meu cantinho.

terça-feira, maio 26, 2009

Dedicatória...

Hoje dedico este post, e principalmente o vídeo abaixo, a todos aqueles que não gostam de mim, aos meus inimigos, detractores, falsos amigos, etc., etc., etc.

Enjoy.

quinta-feira, maio 07, 2009

"Por onde andará Amanda Lepore?"

Foto: Jason Rodgers


A top trans nova-iorquina Amanda Lepore andou meio sumidinha do noticiários nos últimos meses, mas agora voltou com força. Acaba de estrear a nova música da loira mais plastificada do mundo (essa ganha de longe das brasileiras). A faixa ganhou o título de "Cotton Candy".

O clipe é dirigido por Bec Stupak e Amanda aparece nele ao lado do rapper Cazwell, que acabou de passar pelo Brasil, aliás.

Outra aparição de Amanda deu-se na exposição do fotógrafo Jason Rodgers, focado na noite gay nova-iorquina.

Amanda, já sessentona, continua sob os holofotes. Veja o clipe de Cotton candy abaixo.

Enjoy.

Notícia: Mix Brasil



sábado, maio 02, 2009

O meu pai


O meu pai é uma pessoa de temperamento difícil, teimoso, cabeça-dura, mas é alguém que, apesar de nunca termos mantido um relcionamento muito próximo, eu amo. Apesar de tudo e no fim de contas, é meu pai e mantemos um laço emocional, apesar de distante.

Ele sempre me renegou e eu não sabia porquê. Não entendia, na altura. Tratava-me de uma forma diferente da do meu irmão. Ele, que afirmava perante toda a gente que nunca tinha tocado com um dedo num filho, bateu-me e maltratou-me várias vezes durante a minha infância e adolescência.

Dois casos marcantes para mim.
O primeiro foi num dia de calor, já não sei se Primavera ou Verão. Eu precisava de umas sandálias ou uns ténis, um calçado mais leve. Depois de falar com a minha mãe, escolhi umas sandálias simples, mas andróginas. Mal ele chegou a casa do trabalho, levei logo uma estalada, sem saber porquê (devia ter uns 10 anos na altura). De seguida, levou-me escada abaixo sempre a dar-me murros na cabeça e pontapés com toda a força e arrastou-me assim, pelo meio das pessoas, até chegarmos à sapataria, já estava eu lavada em lágrimas e a pedir-lhe que parasse. Obrigou-me a sentar, a calçar umas sandálias de homem horríveis para experimentar, e depois obrigou-me a levá-las (e já calçadas!) até casa, sempre a bater-me. Eu chorava tanto que já nem via o caminho. Nem ouvia já as ofensas que ele me dizia, nem sentia os pontapés no meu rabo, nem os murros na nuca. Conseguiu à custa de muita violência o que queria, achou ele. Nunca mais calcei aquelas sandálias.

Eu devia ter uns 15 anos. Queria ir sair com uns amigos, mas apenas para tomar café e passear ali na zona. Disse-me literalmente que não. Eu retorqui que "não" não é uma razão. O que eu fui dizer! Levantou-se do sofá disparado na minha direcção, deitou-me uma mão ao pescoço, o que me provocou uma dor horrível, e deu-me um pontapé com toda a força na zona da virilha/genitália. A dor foi tão grande que ia desmaiando. Cheia de vómitos da dor fui para a casa-de-banho e fiquei com duas marcas físicas. Um arranhão enorme do lado do pescoço que até fez sangue, e um vergão na virilha, que se prolongava até aos genitais, do lado esquerdo. A pior e mais forte marca com que fiquei, foi aquela que me dizia quem eu era e a negação e ódio permanentes que ele me tinha. Sei que chorei muito, mas depois passou.

Passou tudo, como passa sempre. Mas eu não me esqueço por mais que os anos passem. Tenho noção de que ele esperava de mim mais um "macho-latino" como ele era quando novo, mas teve azar. Nem o meu irmão está nesse patamar absolutamente ridículo, apesar de se ter casado e de lhe ter dado a neta que ele tanto queria. Mas eu... Óh, eu... Eu fui a total desilusão, o aborto que a minha mãe devia ter feito. Nasci para o envergonhar, para ele ver que não acontece só aos outros com quem ele gozava. Teve uma filha Transexual. Que, para ele, é pior que ser-se gay, porque aí sempre se é homem. Mas a vida é assim. Ele sofre, sofre muito com tudo isto. Mas nunca se lembrou que quem sofre mais sou eu e sempre fui. Estou com ele no sofrimento e, apesar de tudo, amo-o. Afinal, como diria o outro, "pai é pai".